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Laira Vanessa Lage Gonçalves, nome de cartório e pia batismal, é a legítima proprietária do agora e por enquanto lote, na Rua do Rosário, em São Sebastião do Rio Preto. Neta de Clodomiro Duarte Lage e Ana Juventino Ferreira (Dona Zizinha) que moraram no sobrado durante cerca de meio século, por questões estritamente sentimentais,  Vanessa resolveu adquirir o imóvel, que passou por vários proprietários e esteve durante pelo menos cinco anos, abandonado. Desta consequência, foi acelerada a sua degradação.

 

 

A fachada, em azul, e totalmente reconstituída, manterá o histórico casarão preservado.

A fachada, em azul, e totalmente reconstituída, manterá o histórico casarão preservado.

 

A primeira medida, depois da aquisição, teve a decisiva providência: restaurar. Durante seis meses, segundo Vanessa, houve a tentativa que acabou sendo frustrada. “Os profissionais daqui sempre indicaram que não valia a pena restaurar, que a casa estava em péssimas condições e que, ao refazer o telhado, as paredes iriam ruir. Teimei até o dia 21 de fevereiro passado e, neste dia mesmo, autorizei a demolição”, disse ela a Notícia Seca.

Vanessa Lage é filha de José Gonçalves Mateus e Glória Lage, falecidos recentemente. E mãe de uma menina, Sofia. Por coincidência, exatamente no dia de sepultamento da mãe, aproveitando a chegada de quatro profissionais à cidade, em prantos pelo ocorrido com a mãe e sentindo a perda do patrimônio da família, decidiu partir para reconstruir o imóvel colonial.

HISTÓRIA DO SOBRADO

A artista são-sebastianense Vanessa Lage, agora dedicada à reconstrução da casa em que viveram seus avós

A artista são-sebastianense Vanessa Lage, agora dedicada à reconstrução da casa em que viveram seus avós

O que se sabe  da história do sobrado é que ele foi construído pela família Moura (Raimundo Moura) e adquirido, na década de 1930, pelo farmacêutico Seraphim Sanna, que chegara em mudança de Passabém, passando também por Paulo Juventino Ferreira, pai de Dona Zizinha.

A sua construção foi seguida à do sobrado ao lado, onde era a residência e a farmácia de Seraphim Sanna. Resistiu, portanto, a pelo menos 90 anos.

São Sebastião do Rio Preto era um “verdadeiro presépio”, disseram e dizem moradores antigos

São Sebastião do Rio Preto era um “verdadeiro presépio”, disseram e dizem moradores antigos

A história dos dois sobrados se confunde com a do arraial. A origem da povoação remonta ao ano de 1814, quando, segundo registros de historiadores, chegaram ao local os portugueses João da Silva Maia, Alexandre Ferreira de Sá e José Guarda-Mor Fernandes das Mercês. O fundador, João da Silva Maia, construiu uma capela às margens do rio Preto, onde atualmente se localiza a sede do município, criado em 31 de dezembro de 1962. Cachoeira Alegre, São Sebastião do Cemitério e, finalmente, São Sebastião do Rio Preto foram os nomes dados ao arraial.

No tempo de São Sebastião do Cemitério, os dois sobrados ocupavam a área do chamado “campo santo”, transferido para o alto do morro, quando os Moura resolveram construir os dois sobrados. Pelo menos o casarão ao lado foi obra de escravos, autorizados por Raimundo Moura, com o único objetivo de abrigar os afro-descendentes em períodos de festas. Esses escravos eram grande atração folclórica das celebrações, segundo registros históricos colhidos no Arquivo Público Mineiro.

Um dos mosaicos de Vanessa Lage pintados na cidade, este na escadaria da Igreja Matriz.

Um dos mosaicos de Vanessa Lage pintados na cidade, este na escadaria da Igreja Matriz.

Na década de 1970, Somiro e Dona Zizinha, que tiveram 16 filhos, mudaram-se para Belo Horizonte. Então, a propriedade passou a alguns donos, dentre eles a família do conhecido Geraldino da Alice.

Agora, ao retornar à terra natal, Vanessa adquiriu o sobrado com o único objetivo de mantê-lo, reformado e restaurado. Segundo ela, a situação não permitiu, não era o que esperava: “Os barrotes, que sustentavam a construção, estavam todos ‘comidos’ por cupins, as paredes, de pau a pique, caindo, tudo isso constatado depois que carpinteiros tentaram consertar o telhado”, afirmou.

A demolição, ao lado da Pharmácia São José, feita no dia de sepultamento de sua mãe: prantos e compromisso

A demolição, ao lado da Pharmácia São José, feita no dia de sepultamento de sua mãe: prantos e compromisso

O FUTURO DO SOBRADO

Como se pode observar  numa das imagens (foto pintada pelo artista Márcio Freitas), até a década de 1950  São Sebastião do Rio Preto era “um verdadeiro presépio”, como dizem e diziam muitos de seus antigos moradores. Aos poucos, com o passar do tempo, as casas foram sofrendo desgastes e muitos de seus moradores, sem ainda terem conscientização a respeito do valor do patrimônio histórico, passaram a optar por reconstruções, ou seja, derrubar e construir outra, sempre em estilos diferentes, mais comumente o que se chama “falta de estilo”.

O maior exemplo de incentivo à destruição ocorreu em 1965, quando foi demolida a histórica e rica Igreja do Rosário. O jornalzinho “Folha Sebastianense” (José Sana, seu responsável, com 16 anos) contou a história da relíquia barroca, que tinha no teto demonstrações da arte do Mestre Ataíde. Manuel da Costa Ataíde inspirou em seus discípulos e seguidores toques de pinturas no teto da ermida. A reportagem, publicada em 1968, teve entrevista do são-sebastianense, advogado Sebastião Ferreira de Oliveira, o Sebastião de Dona Maricas.

A artista Vanessa ao lado do chafariz por ela restaurado e pintado, ladeada também por sua Mãe

A artista Vanessa ao lado do chafariz por ela restaurado e pintado, ladeada também por sua Mãe

Entendida de história, artista reconhecida, amante da cultura, tendo vivido no sobrado parte da infância quando ele pertencia aos avós, depois de um bom tempo trabalhando em cargos de importância técnica em Brasília, Vanessa tomou a iniciativa de reconstruir o imóvel tal como ele era antes, isto é, uma réplica histórica.

A presença dela na cidade em que nasceu não é recente com a decisão de preservar um monumento histórico-cultural. Vanessa de há muito vinha presenteando São Sebastião com mosaicos que lembram exatamente a história da cidade. Reconstruiu um chafariz, obra de seus antepassados, na praça principal, em frente à Igreja Matriz do Padroeiro São Sebastião. Recentemente, suas obras de pintura, foram eleitas, por votação na internet, como a primeira das Sete Maravilhas de São Sebastião do Rio Preto.

Vanessa descreve o que pretende fazer de agora em diante: “A casa será modificada no mínimo possível — vamos construir apenas dois banheiros — e seguir os padrões do prédio colonial que aí existiu”, declarou. “A arquiteta contratada está projetando a mesma fachada que existia, em azul, e considerando a preservação dos cômodos e de todos os outros detalhes; enfim, faremos tudo dentro da originalidade da histórica casa”, acrescentou.

O casarão como estava nos últimos dias: a cor rosa desaparecerá e será pintado a azul tal como era nos tempos dos avós de Vanessa.

O casarão como estava nos últimos dias: a cor rosa desaparecerá e será pintado a azul tal como era nos tempos dos avós de Vanessa.

A exemplo de Hémerson Silva, que reconstruiu um casarão na rua São Vivente, Vanessa oferece mais um exemplo para todos: “É importante respeitar a história, preservá-la e a memória de quem amamos. Pessoas valem mais que coisas, muito mais; e onde elas viveram para nós é importante”, finalizou.

José Sana

16/03/2021

Fotos: Arquivos de N.S., Álbum da Família e Geraldo Quintão

 

 

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Geraldo Quintao de Almeida
Geraldo Quintao de Almeida
1 mês atrás

Parabéns, ficou muito bom.essa casa tem muita história, tio Soniro tinha.a barberia, era criança cortava cabelo com ele,aquele tupetinho kkkkkkk

NATALIA CRISTINA DIAS MARTIR
NATALIA CRISTINA DIAS MARTIR
1 mês atrás

Nossa que dor no peito senti ao saber disso, mais ainda por conhecer a falta de interesse dos municípios pequenos em relação ao tombamento, registro e preservação dos bens materiais. Enfim, por outro lado consolada, pela belíssima iniciativa da artista. Ainda que pouca, carrego nas lembranças a história vivida no casarão também por minha família, Vó Sinhá (Sinhá da Alice).
mais uma vez, obrigaaaaddda Vanessa!!!!

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