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O prazo está praticamente vencido mas ainda corre. Se dá tempo de reorganizar uma nova economia, só Deus sabe. A Vale anunciou que vai partir, ou quem sabe continue na sua terra natal. Todas as discussões até então mantidas com a mineradora tecnicamente podem ser vistas principalmente nas Licenças de Operações Corretivas para minerar. “Itabira não se organizou, não soube se posicionar e, consequentemente, não obteve os resultados positivos que eram esperados” (Um comerciante de peso na cidade entrevistado por uma pesquisadora).

Itabira dos idos de 1940: a velha Catedral, derrubada na década de 1970 e, no fundo, o Pico do Cauê, ainda intato.

Itabira dos idos de 1940: a velha Catedral, derrubada na década de 1970 e, no fundo, o Pico do Cauê, ainda intato.

Incompreensível para qualquer cidadão que sabe o poder da história é ver como Itabira segue a vida, aos poucos, descartando seus tesouros. A Carlos Drummond de Andrade deu valor depois de falecido; João Camilo de Oliveira Torre passou brilhante, mas despercebido; Luiz Camilo de Oliveira Netto é só nome de biblioteca; Paulo Camilo de Oliveira teve apenas a ideia do royalty do minério de ferro, mas quem sabe desta história?

Assim caminha a terra da Vale, do Valério (que precisa reagir), de Alfredo Duval, de Maria Cassemira, dos Drummonzinhos e de outros mais. E pouco sabe também que nas suas entranhas reina a sabedoria das Três Marias, que nasceram em Rio Piracicaba, Minas Gerais (a cerca de 60 quilômetros de Itabira) e escolheram ser itabiranas desde a infância.

Automóvel estacionado próximo ao atual Museu de Itabira (provavelmente de Chico Osório), que trouxe o primeiro veículo com motor a gasolina para a cidade

Automóvel estacionado próximo ao atual Museu de Itabira (provavelmente de Chico Osório), que trouxe o primeiro veículo com motor a gasolina para a cidade

Não é hora de colocá-las num pedestal. Elas nunca brigaram por isso. É o momento de saber utilizar o que elas conhecem como que uma bola de cristal apontando para o futuro. Sabemos todos que a hora difícil vem aí, a entrada da próxima década. O que vem se repetindo há mais de 300 anos não muda o tom da valsa nem da ópera se não se colocar a inteligência para funcionar.

Rua Tiradentes nas proximidades do Paredão: foto de Vila de Utopia, original de outros jornalistas

Rua Tiradentes nas proximidades do Paredão: foto de Vila de Utopia, original de outros jornalistas

Leiam seus livros e trabalhos acadêmicos-científicos e as chamem para detalhes. Elas mostrarão claramente o que vem aí. Não são bruxas, não tenham medo. Elas praticam o conhecimento da história praticamente exata, mais científica que filosófica. O futuro só repete o passado quando cruzamos os braços.

Para melhor esclarecimento, cumprimos dever de, pela milésima vez, reapresentá-las.

Ei-las:

MARIA CECÍLIA

Maria Cecília de Souza Minayo, possui graduação em Sociologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1978), graduação em Ciências Sociais – City University of New York (1979), mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1985) e doutorado em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz (1989). Desde 1997 é editora científica da revista Ciência & Saúde coletiva da Associação Brasileira de Saúde Coletiva e pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz.

Tem experiência na área de Saúde Pública, com ênfase em Saúde Coletiva, atuando como professora, pesquisadora e orientadora, principalmente nos seguintes temas: metodologia de pesquisa social, metodologia da pesquisa social em saúde pública, violência e saúde, causas externas, violência autoinfligida, saúde coletiva e saúde e sociedade. Já orientou 69 teses e dissertações, publicou mais de 200 artigos científicos, duas centenas de capítulos de livros e 40 livros, sendo sete individualmente e 34 como organizadora e em colaboração.

É editora-chefe da Revista Ciência & Saúde Coletiva. Membro do conselho editorial de 14 revistas científicas, sendo 4 estrangeiras e, desde 2013, é Editora Regional da Revista Environmental Health Perspectives. Tem vários prêmios por seus méritos na área de saúde dentre eles o de “Medalha de Mérito da Saúde “Oswaldo Cruz” conferido pelo Ministério da Saúde em 2009 e o Prêmio de Direitos Humanos em 2014 conferido pela Presidência da República. É bolsista 1A de produtividade do CNPQ e pesquisadora emérita da FAPERJ

(https://www.escavador.com/sobre/1166504/maria-cecilia-de-souza-minayo).

Maria Cecília de Souza Minayo, autora de Homens de Ferro (1986) e De Ferro e Flexíveis (2004), tem anotadas infinitas informações sobre Itabira. Reside no Rio de Janeiro, mas seus livros mostram o que conhece de Itabira com detalhes jamais calculados.

 ZARA

Maria do Rosário Guimarães de Souza, Zara, é graduada em Ciências Exatas/Matemática – pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1975); especialização em Ciência do Ambiente e Biologia Geral pela PUC-MG e mestrado em Geografia e Organização Humana do Espaço — pela Universidade Federal de Minas Gerais (2003).

Tem experiência em Biologia Geral; na área de meio ambiente — gestão ambiental, educação ambiental, sociedade e meio ambiente com ênfase nos temas: sustentabilidade, resíduos sólidos, coleta seletiva, impacto ambiental, poluição ambiental, espaço urbano; em metodologia científica, metodologia científica e tecnológica, metodologia de pesquisa geográfica; em educação — didática geral, didática da ciência; instrumentação para o ensino de ciências, estágio supervisionado; em saúde da comunidade.

Autora dos livros Da Paciência à Resistência: Conflitos entre Atores sociais, Espaço Urbano e Espaço de Mineração; Fachi 40 anos, Funcesi 15 anos: o ensino superior de Itabira tem história.

(https://www.escavador.com/sobre/1060021/maria-do-rosario-guimaraes-de-souza).

BAGINHA

Maria das Graças de Souza e Silva, Baginha, possui graduação em Estudos Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (1970), graduação em Geografia pela Pontifícia Universidade Católica de MG (1972) e mestrado em Geografia e Organização Humana do Espaço pela Universidade Federal de Minas Gerais (2002).

Professora de nível superior da Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira e pesquisadora da Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira. Tem experiência na área de Geografia, com ênfase em Geografia Urbana, atuando principalmente nos seguintes temas: Itabira-mineração-transformações- espaço urbano, Itabira-vulnerabilidade-socioeconomia-politica, impactos e riscos socioambientais – espaço urbano – mineração.

Numa conversa com a mestre Baginha, qualquer interessado, ou entendido, ou mesmo leigo, aprende e complementa seus conhecimentos sobre a terra que, por obra do destino e ao lado das irmãs, escolheu para viver.

(https://www.escavador.com/sobre/2610688/maria-das-gracas-souza-e-silva).

Em nosso foco deste momento importante da vida itabirana, destacamos sua obra A Terceira Itabira (2004), uma alusão ao questionamento de Drummond quanto ao destino de Itabira após a exploração de suas riquezas minerais. O poeta pergunta: “Haverá uma terceira e diversa Itabira?” Do questionamento e das dúvidas do poeta itabirano, Baginha desenvolve o seu trabalho, grande bússola para urbanistas, economistas, socióloos e mesmo leigos, basearem-se em realidade com foco no futuro.

CONCLUSÃO

Cavaleiros desfilam pelas ruas de Itabira (Guarda-Mor Custódio) e são flagrados pela lente do famoso fotógrafo Brás Martins da Costa

Cavaleiros desfilam pelas ruas de Itabira (Guarda-Mor Custódio) e são flagrados pela lente do famoso fotógrafo Brás Martins da Costa

Não se admite, na mínima hipótese que, ao invés de Itabira reagir, mesmo agora depois de quase 80 anos de parcerias ainda insatisfatórias, as Três Marias fiquem de fora. É hora de em qualquer comissão, grupo, equipe de estudos ou trabalhos terem-nas no meio como eminentes consultoras, ou assessoras, pois é verdade que pesquisaram e estudaram peças itabiranas ligadas aos principais problemas da cidade e as colocaram como atores deste teatro que começou com o Cauê e cujo desenrolar da história ainda acontece.

As lembranças, pois, de perdas irreparáveis, ou ainda recuperáveis, foram propositais, oportunas, porque não há palavras para dizer que as citadas Marias tenham não apenas desenvolvido projetos de pesquisa, mas participado ativamente como educadoras, professoras, diretoras, monitoras, voluntárias. Apenas para lembrar um registro: uma delas, Maria do Rosário, conhecida como Zara, prestou relevantes serviços à primeira entidade filantrópica itabirana, a Associação de Proteção à Infância de Itabira (APMI) durante 35 anos por meio de método pouco conhecido no capitalismo e sequer socialismo.

Primeiros carregamentos de minério de ferro em Itabira na década de 1940. Itabira sequer sonhando com os problemas que criaria para serem resolvidos agora

Primeiros carregamentos de minério de ferro em Itabira na década de 1940. Itabira sequer sonhando com os problemas que criaria para serem resolvidos agora

No silêncio da humildade e do saber sem exposição, sem imprensa e sem marketing, nem foram percebidas por aqueles que ano a ano apresentam e votam projetos de cidadania honorária. Mas não se abalam e continuam suas trajetórias. Elas, as três, são tocadas a idealismo, puro e simples, palpável, tangível.

Itabira espremida entre 120 mil habitantes, precisando discutir o seu futuro e com outras questões ainda encalhadas

Itabira espremida entre 120 mil habitantes, precisando discutir o seu futuro e com outras questões ainda encalhadas

Para encerrar, apenas um esclarecimento: não tenho procuração para escrever o que acima está, nem sequer autorização, não sou profissional de marketing (se fosse estaria à míngua). Apenas um itabirano de coração, que escolheu a terra mais próxima de seu ninho original para viver, cuidar de filhos e netos, ser vereador e cidadão preocupado com o nosso futuro.

José Sana/NS

Fotos: Arquivo N.S. e Facebook

Fotos de: O Trem Itabirano, Brás Martins da Costa, Museu de Itabira, Vila de Utopia e Arquivo N.S.

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