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Boa tarde - Itabira, sábado, 14 de dezembro de 2019   NOTÍCIA SECA CONTATO

CIDADES  
RENISCÊNCIAS DE GUANHÃES (2)
Livre finalmente e Silvestre Quintão, o salvador da pátria 20/11/2019

 

Já contei em um escrito por aí que ganhei uma espécie de liberdade para viver no dia 5 de fevereiro de 1957. Neste dia, montado em lombos de burros, fomos — Sá Chica, sua neta criança ainda, Marlete, Mercês, Glória e Luzia, guiados por Zé Pirulito — para o arraial de Goiabas, situado na antiga estrada de Belo Horizonte a Guanhães, arredores de Carmésia, distrito na época chamado de Viamão. Lá dormimos — o aconchego era de Tatão e Tia Aulisia — e, no dia seguinte, de manhã, depois de pegar o ônibus, desembarcamos no nosso destino, Guanhães, cidade que me deslumbrou de vez.

 

Devo essa ida  a Guanhães à minha professora Inês de Alvarenga, vinda de Ferros, que convenceu meu pai a me liberar. Devo também à minha tia-irmã Mercês, que tinha passado um semestre em Guanhães, preparando-se para o exame de admissão ao ginásio, antigo vestibular do primário para o ginasial, que seria, hoje, para o Curso Fundamental I. E devo ao meu avô Serafim, que convenceu meu pai ao finalmente liberar.  A vitória veio aí e agora estava na primeira cidade em que me senti livre para voar, por isso Guanhães faz parte de minha memória mais lúcida e mais grata que tenho. Terra do coração.

 

Não pude morar  na casa de Senhor João Moura com as meninas. Não tinha vaga ali para adolescentes homens. Tratava-se de um harém habitado por tia Mercês, Luzia e Glória de Dona Zizinha, além dos moradores habituais. Meu pai, já vencido pela necessidade de deixar o filho ir à frente, arrumou com Silvestre Quintão, seu velho amigo desde os tempos antigos, uma vaga para mim em sua casa. Silvestre casou-se com Zezé do Senhor Altas.

 

Fui para a casa deles com uma ladainha de recomendações. Lembro-me das seguintes: 1 - Tratar Zezé como Dona Zezé; Silvestre como Senhor Silvestre. 2 - Não contrariar os horários da casa; 3 -  Ir à missa todos os domingos e dias santos. E por aí vai. Mas eu burlava quase todos, inclusive os nomes complicados Senhor e Dona, que o gozador Juquita tremia de rir quando ouvia o que considerava “barbaridade” sair de minha boca.

 

Quanto ao Silvestre, ou Senhor Silvestre, no princípio demorei a tolerar os seus musicais caipiras tocados no rádio. Seis horas da manhã era acordado por Cascatinha e Inhana, Pedro Bento e Zé da Estrada, Tonico e Tinoco, tocando e cantando “Mula Preta”, “Olhos D´Água”, “Menino da Porteira” e tantos outras melodias mais que detestava. Silvestre sabia disso, olhava para mim e metia volume no seu rádio que fazia tremer até o teto da casa. E ria à vontade. Dona Zezé o repreendia: “Você acorda a Edna!”

 

Edna era uma garotinha muito dócil, a caçulinha, que hoje me dá saudade. Chegou a disputar o título de Miss Minas Gerais, de tão bonita. Faleceu prematuramente. O irmão Éder, mais velho e já menino crescido, sadio, também fazia a alegria da casa. Até os dias de hoje está firme com os negócios e a família na velha Guanhães.

 

Aos poucos, fui gostando do Senhor Silvestre e tirei o Senhor de prenome. Certa vez, ele coroou de glórias tudo que podia sonhar naquele momento. Foi numa noite, vindo em correria pela Avenida Domingos Buzatti, hoje Milton Campos, já passava das dez horas da noite, a cidade dormia, os donos da casa me alertavam que não chegasse depois das dez. Um caminhão passou em desabalada correria perto do conhecido Posto Shell. Caiu uma peça no chão, um barulhão, o caminhão não parou, desceu no rumo de São João Evangelista. Olhei por perto, ninguém por ali. Peguei um jornal no posto que estava sem frentista, já tinha fechado. Com o papel enrolei a peça que transbordava de óleo queimado. Estava pesada. Levei-a carregada com muito esforço até a casa onde morava, na Rua Santa Efigênia. Cheguei. Deixei-a no chão do quarto. Silvestre e Zezé dormiam. A casa em silêncio.

 

No dia seguinte, antes que o caipira tocasse, com o que já estava acostumado, chamei Silvestre e mostrei a peça. Contei como a havia encontrado. Ele sabia mais ou menos o seu nome. Era uma parte do diferencial de caminhão. Falou para mim: “Posso ver se algum ferro-velho se interessa por isto; deixe comigo, depois falo para você”. Fiquei com muita esperança de sair um bom dinheirinho daquela achada na calada da noite.

 

Em três dias de suspense, cheio de  ansiedade, Silvestre chegou com a mão cheia - ele gostava de uma simulação -  e me falou: “É o que consegui apurar, esses milhões de contos de réis”. Com aquela grana em mãos, ri sozinho de satisfação. Agradeci-o quase chorando. Ele ainda alertou: “Não abuse! Dinheiro demais faz mal!” E ouviu de minha boca também: "Tenho pena do dono do caminhão, que perdeu a peça, coitado!" Silvestre me acomodou: "Ele chegou ao seu destino com segurança, nem tanta falta a peça  faz! É uma espécie de sobressalente".

 

Em referência aos contos de réis, nem tanto fazem mal, pensei comigo. As economias enviadas de casa tinham acabado antes da hora. Havia, àquela altura, muitas dívidas a saldar com colegas, inclusive um valor razoável à Stael da deliciosa empadinha. Stael era impertinente, conhecia um por um dos alunos aos quais vendia fiado com muitas recomendações de “Traz o dinheiro depressa!”. Ela cobrava de mim sempre, enquanto eu procurava me esconder como um coelhinho de jardim zoológico. Dias difíceis.

 

Mas agora, com os milhões de réis milagrosos vindos do caminhão desgovernado, de minha perspicácia em ver e esperar  e do salvador da pátria, Silvestre, paguei todas as contas. E sobrou grana para aguentar até o fim do ano, também para ver os faroestes que desfilavam nas telas do Cine São Miguel, às quartas, sábados e nos matinês de domingo.

 

Viva o Senhor Silvestre!

 

José Sana

20/11/2019

Fotos: Noticia Seca (site)

 


 

 

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