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Boa madrugada - Itabira, terça, 25 de junho de 2019   NOTÍCIA SECA

CRÔNICAS  
POR LÁGRIMAS QUE NÃO VOU DERRAMAR
Vâni de Carvalho Moura merece ser eterna 03/06/2019

 

Quis Deus que  eu pudesse me transformar num rabiscador de textos e tivesse a oportunidade de enxergar a olho nu personagens especiais. Algumas pessoas generosas dizem que escrevo bem, mas não é verdade porque não escrevo. Reitero: rabisco. Sempre sou grato por elogios que vêm como incentivos, além até de críticas construtivas que ajudam. Contudo, é preciso separar detalhes que ficam escondidos por trás de dois questionamentos: o  profissional escreve com as mãos ou  os dedos; o emotivo arranca, a unhas bondosas e suaves,  palavras da alma. Eu sou o segundo neste instante. E que me perdoem os duros na queda.

 

Escolho neste momento colocar nas teclas do laptop apenas o coração. Exijo aplicar o anti-anacronismo, ou seja, não atribuir a uma época ou a um personagem ideias e sentimentos que são de hoje, desses tempos atribulados. Mais especificamente, como aprendi como historiador, do magistral Eric Hobsbawn: “Ver a Idade Média com os olhos da Idade Média”.

 

Aproveito a sábia frase, muito repetida nas aulas de História, para voltar toda essa alma à memória e retornar aos tempos de criança. E, então, estamos em Guanhães, no fim da década de 1950, onde fui estudar quase que por exigência própria. Com os meus 12, 13 anos, na época não existia adolescência, mas infantilidade total e quase infinita.

 

Mesmo na infância pura, já tinha os meus mitos. Por exemplo, o Papa Pio XII era uma inspiração religiosa. Nelson Rodrigues, Jorge Amado, Machado de Assis, José de Alencar, João Saldanha, compunham a literatura que tentava seguir.  Heitor da Mata, professor de matemática, depois José Abrantes — o primeiro em Guanhães e o segundo em Conceição do Mato Dentro — os sublimes donos dos números que me encabulavam. José Leite Vidigal, o doutor inspirador da língua portuguesa. Durcelino Reis, que me ensinou  a gostar do francês e a balbuciar La Marselheise.  Havia outros, mas também incluíam-se  algumas mulheres, entre as quais se destacava uma, que imprimia  muita influência em meu senso de observação. Seu nome próprio de cartório e pia batismal: Vani de Carvalho Moura. Moça formada física e geneticamente e eu ainda um pirralho que mal sabia andar de bicicleta pelas ruas empoeiradas de Guanhães.

 

Guanhães, minha primeira cidade de moradia no mundo — São   Sebastião do Rio Preto, onde nasci, formava, entre muitos, o oitavo  distrito de Conceição do Mato Dentro — foi o palco de ver, conhecer e admirar essa sublime  mulher. Minha pensão, a segunda que tive na cidade, casa do tio de Vani, o engenheiro João Rodrigues de Moura. Por isso, ela lá estava frequentemente presente. Quando a via, não sei o que se passava:  sentia que parecia babar a camisa como uma criança de berço e colo, considerando aquela figura escultural à minha frente. E pensava que uma mulher bonita assim tinha que ser sábia também. Então, engolia as suas palavras pausadas, junto da baba que retornava ao seu lugar, sons emitidos como se fossem por anjos no céu, medidas, cheias de  ideias incontestáveis. A cor de Vani era indescritível, um jambo-moreno que só via nos filmes de nadadores do Havaí. Mencionei isso porque não sou de ferro para esconder.

 

Ela se tornara professora e falava mesmo com ares de mestre, respeitada até pelos mais velhos. Observador ao extremo, via que ela parava o trânsito calmo da cidade, pessoas saíam às portas e nas janelas para ver uma mulher que, juro, na sua simplicidade nem percebia. Eu, na idade pouco acima da fralda, chupeta e mamadeira, notava. E, certa vez, repentinamente, Vâni  aparece lá com um convite de casamento nas mãos, para mim um nocaute. Pensava comigo mesmo:  “Como uma moça perfeita dessa pode casar-se? Deveria ser proibido!” Na minha imaginação infantil  tinha ela que ser como na  melodia de Ângela Maria: “Ela tem o destino da Lua, a todos encanta mas não é de ninguém”.

 

Como num passe de mágica, consolou-me  ao dizer que seu príncipe encantado não era intruso ou um estranho no ninho, mas seu primo em primeiro grau. E declamou, toda cheia de romance na voz, como num poema de Drummond cadenciado, seu nome: Lúcio Rodrigues de Moura, filho de seu tio, Urbano Rodrigues de Moura, que era irmão de seu pai, Raimundo Rodrigues de Moura. Seu Raimundo era fabricante do “Guaraná Moura”, acho que o primeiro refrigerante que saboreei na vida.

 

Mas voltemos à entrada do templo, o guaraná fica para a recepção em casa. Ornamentava a Igreja Matriz de São Miguel Y Almas  rosas brancas, bem ao gosto de Vâni, que tinha nas mãos um buquê feito de copo de leite, algo bem assim.  Esclarecendo melhor: estamos em 26 de outubro de 1958, um domingo. Era chique e comum  realizar o indissolúvel ato matrimonial nesse dia. Seu Raimundo com ela no braço direito, se não me engano, no direito mesmo, correto até hoje. Ela, apreciada em todos os detalhes, mais especificamente naquele rosto magnificamente desenhado e lá na frente estava o presidente da cerimônia, o Padre Geraldo Magela, outra lenda que Guanhães guarda ainda na sua história. Ao lado dele o outro galã de cinema, Lúcio, como foi dito, seu eterno namorado, suando as mãos e acho que também os pés.

 

Por ironia do destino, acabei sendo um zé-ninguém especial: com 13 anos de idade, vestido de terno e gravata como convinha nos domingos de missa, fui puxado pela queridíssima Maria Lina, conhecida como Neném de Dona Maricas, hoje com 98 anos  bem vividos. Disse “fui puxado” e nada combinado, para entrar na igreja de braços dados com Marlete, dez anos, que seria, por absoluto capricho do destino, 12 anos depois, somente isso, minha legítima esposa, ainda na Idade Média da indissolubilidade do casamento. Minha dama particular, de vestido rodado, branco como a noiva, com rendas nas pontas, um luxo, hoje seguida pelas seis netinhas que Deus lhes deu. Eu, repito, de gravata que o avô dela e tio da noiva, João Moura, ensinara-me o nó com capricho, tarefa em que sou bom até hoje.

 

Mas chega de falar de mim ou de nós. Quis apenas imiscuir-me nesta história linda, com muito orgulho, ou que fiz e faço parte da vida de Vâni, que seria professora no Colégio São Vicente de Paulo, Cosme Velho (RJ); em Itajubá, Sul de Minas, na Escola Municipal Teodomiro Santiago;  e em Ouro Preto, na Escola Estadual Dom Pedro II. Resumindo sua vida: nasceu em Ferros, casou-se em Guanhães, morou em Itajubá, Ouro Preto, Niterói, Rio de Janeiro e Ilhabela (SP), sua última residência.

 

E faleceu em Sarleinsbach, Áustria, na última quinta-feira, aos 85 anos de idade, onde mora seu filho caçula Ronaldo Lúcio Rodrigues de Moura, odontólogo pela UFRJ, no Rio de Janeiro e com doutorado na Alemanha pela  Friedrich-Schiller-Universität, Jena;  e a filha médica, esta em Viena, graduada também pela UFRJ, no Rio de Janeiro, com doutorado na Alemanha  - Friedrich-Schiller-Universität, Jena.

 

Importante dizer: falei da beleza ímpar de Vâni e é preciso acrescentar a sua liderança como mulher de sucesso, sem a necessidade de levantar bandeiras por aí, ou entrar em grupos de passeata, de estimular o mundo a punir os incautos por feminismo, ou machismo, racismo, homofobia, ou o que for.  Ela soube explicar o que se deve ser, primeiramente, incentivou o marido, outra peça de valor nesta história, a estudar Odontologia na UFRJ, e daí, os dois, orientaram os filhos à bela vida que Deus lhes deu. Para não dizer que contribuiu somente à família — Vâni também alfabetizou o filho Ronaldo que “se enrolava” na escola pública — passou pelo caminho de ser a mais perfeita professora de centenas de outros alunos dos tempos de exímia gerente de sala de aula.

 

Em todas as influências por ela exercidas aos que a admiram ainda, e a seguem também em exemplos, inspirou os filhos a aperfeiçoarem-se  nos estudos numa nação em que a  bandeira de Minas Gerais parece copiada do país austríaco, com outras similitudes dos países dos Alpes (Alpenländer) como, por exemplo, geograficamente, a Suíça.

 

Bem. Estaciono-me aqui. Escrevi muito. Volto a Deus, que me ensinou  a rabiscar palavras. Ele mesmo  recebeu a sua boníssima alma em 30 de maio passado, quinta-feira, alma líder sem passeata, educadora por vocação, amorosa por bênção divina e belíssima por escolha da ponta do lápis uterino. Resumindo: bela por dentro e bela por fora. Ouso concluir  com a minha segurança e consciência pessoal: Vâni não morreu. Está entre nós. Continuará aqui.

 

Fique, então, querida quase  prima Vâni,  à vontade para persistir em nos ser  útil nas horas tristes e amargas e sempre a nos ensinar a gratidão na felicidade, porque, apesar de momentos como este, a vida continua sendo bela. Por isto, estas são as lágrimas que não vou derramar. Você merece o amor. E o tem.

 

José Sana

Em 03/06/2019

Obs: 1.Aos leitores eventuais tinha prometido não escrever muito, mas desculpem-me hoje, 3 de junho de 2019, foi sepultado um corpo mas é preciso um registro para memorizar para sempre sua belíssima alma.

         2. Fotos: 1. Vâni ainda jovem; 2. Vâni e Lúcio recentemente; 3. Igreja Matriz de Guanhães onde Vâni e Lúcio se casaram; 4. buquê que Vani usou em seu casamento; 4. Vani em foto recente.

          3. Sou gratíssimo à minha prima Ana Paula Victor por contribuir em muito nas informações que renderam estes rabiscos. Ana é uma peça querida.


 

 

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