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Boa madrugada - Itabira, quarta, 05 de agosto de 2020   NOTÍCIA SECA CONTATO

HUMOR  
ENTREVISTA IMAGINÁRIA SOBRE MINERAÇÃO
Entrevistado: presidente da DRVC 16/02/2019

 
O mundo ficou tão mentiroso e hipócrita que se transformou num planeta enfadonho e chato para nele se fazerem entrevistas legítimas e chamadas de verdadeiras. A invenção da entrevista imaginária, na década de 1960, pelo lendário jornalista, escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, nos dá uma visão concreta deste panorama. Somente na matéria  imaginária as verdades são ditas e isso ocorre porque nelas ninguém tem mais compromisso com marketing e com outras invenções.
 
Contudo, neste parlatório desenrolado com o Senhor DRVC, algo vai ficar muito claro: que o diretor e dono da mineradora  consegue ser claríssimo porque tudo é imaginário. Ou seja, o que se cria é mesmo a verdade pura e límpida.  Muitos  chamaram o tal diretor-presidente e dono de cara de pau. Com certeza, ele é um pau da cara. Vamos conferir na conversação que se deu no meio da lama na cidade denominada Santana dos Lamaçais, pertencente ao Estado de Minerais Generalizados, que foi quase toda devorada pela lama.
 
Escolhemos o lugar para a entrevista: à beira do caos que era visto pelo Senhor DRVC orgulhoso, de peito bem estufado e nariz em pé
.
CABRITOE agora, senhor dono da DRVC, como vai ficar essa confusão toda, o que será feito em benefício das famílias de vítimas da tragédia em Santana dos Lamaçais?
SENHOR DRVC — Vamos fazer o seguinte: tocar o bonde pra frente, porque é pra frente que se anda, e continuar fazendo buracos por nosso Estado. Quem foi que denominou Minerais Generalizados a esta riqueza preciosa? Agora vamos continuar colhendo todos os frutos de nossos esforços...
 
CABRITOVocês vão continuar explorando minério, rejeito e lama por aqui?
SENHOR DRVC — Explorando nada! Somos explorados e as comunidades estão pegando o boi por causa  disso. Cada tonelada de rejeito que despejamos nas barragens serve para que os moradores das cidades mineradoras bebam mais uma cerveja artesanal cara e gelada, fora um litro de uísque da melhor qualidade.
 
CABRITOEstão chamando o senhor de assassino. O que diz?
SENHOR DRVC — Não pode ser! Você entendeu mal.  De acordo com as religiões, começamos a viver quando morremos. Quem morre sufocado pela lama encontrará um paraíso ainda melhor. São Pedro pode até lhe entregar a chave do céu, já que está velho e cansado.
 
CABRITOGostaria de falar sobre Santana dos Lamaçais, Barão das Bruxas Soltas  e Presidente Vargas. Podemos ouvir o senhor sobre esses assuntos?
SENHOR DRVC — Claro. O que quer saber?
 
CABRITOQuando o povo de Soco no Saco voltará para casa?
SENHOR DRVC — Se quiser, pode voltar hoje, agora, já, neste minuto. Todos os exilados de Barão das Bruxas estão gostando dos hotéis que pagamos na área, fiquei sabendo com certeza absoluta. Estão em apartamentos de luxo, recebem café da manhã de alta qualidade com sucos e frutas, “marmitex” cheio até entornar de comida quente, estão como se estivessem em férias na praia. Você tem alguma reclamação deles a fazer?
 
CABRITO Por enquanto, não. Só pergunto se a DRVC vai consertar as rachaduras da barragem?
SENHOR DRVC — Você parece um bode inteligente mas não é. Aquelas rachaduras sempre existiram e existirão em todas as barragens de rejeito do mundo. Se estourar,
cada um vai encontrar o seu paraíso de que já lhe falei.
 
"Deus sou eu"
 
CABRITO O senhor acredita em Deus?
SENHOR DRVC — É claro que acredito. Deus sou eu. Você está falando com o próprio e ainda não desconfiou?
 
CABRITO O que será dos varguenses?
SENHOR DRVC — Eles precisam perguntar se a DRVC está feliz.  Entupimos a cidade de dinheiro durante 76 anos. Presidente Vargas queimou a grana como numa fogueira de São João, fazendo festa, soltando foguetes e buscapé. O povo vive de barriga cheia, todo mundo tem dois, três, quatro ou mais veículos; constroem mansões em condomínios de luxo; bebem uísque importado e cerveja artesanal da melhor qualidade; fazem churrascos noite e dia em qualquer lugar; colocam cães para tratamento de saúde em canis luxuosos; criam gatos em sofás caríssimos; vestem-se como reis e rainhas. E você ainda me pergunta, seu Cabrito descarado, o que será dos nascidos, criados e estabelecidos em Presidente Vargas?
 
CABRITOPresidente Vargas virou uma ilha cercada de lama por todos os lados. O senhor não teme que ocorra lá o mesmo que em Santana dos Lamaçais?
SENHOR DRVC — Sem chance. Primeiro, as barragens de Presidente Vargas são bentas, bem-feitas e a jusante, ou seja forradas com brita de ouro; segundo, todas alteadas e cercadas de sirenes. Qualquer problema que surgir, a sirene apita e cada um pega a sua trouxa e sai correndo. As crianças são muito bem nutridas, os velhos resistentes, vivem em academias e praticam os mais exigentes esportes. Apitou, correu, está salvo. Mas se ocorrer como em Santana dos Lamaçais, há provas contudentes de que nada temos com isso, pagamos os melhores técnicos.
 
 
"Futuro? Que futuro?"
 
CABRITOAlém da questão de barragens de Presidente Vargas que estão em perigo, os moradores de lá querem saber como a DRVC reconstruirá todo o seu futuro. O senhor pode nos explicar?
SENHOR DRVC — Futuro? Que futuro? Esta palavra não existe. Vocês vivem sonhando com o que vem pela frente, o que ainda não aconteceu e pode nem acontecer. O que há é o presente, o agora, o que estamos vivendo. Faça outra pergunta porque esta foi muito fraca.
 
"Vamos pedir ressarcimento"
 
CABRITOO povo de Presidente Vargas quer saber se a DRVC vai indenizar a cidade que foi completamente esburacada e destruída...
SENHOR DRVC — Olhe aqui: se você for o mensageiro que eles mandaram saiba o seguinte: está muito enganado! Nós somos que vamos pedir ressarcimento do que pagamos indevidamente, das praças que construímos e estão abandonadas, dos impostos que pagamos em excesso e das benesses que oferecemos.
 
CABRITOO senhor não concorda que a sua empresa mineradora acabou também com a água de Presidente Vargas?
SENHOR DRVC — Você está louco? Além das barragens de rejeito, construímos também barragens de água. Podem ir lá com baldes e se esbaldarem. Carreguem à vontade. Aumentamos em mais do triplo o volume delas. Veja bem e me fale depois se estou ou não falando a pura verdade.
 
CABRITOO senhor tem algum recado para mandar aos cidadãos que moram à beira das barragens, cujo terrítório está sendo devastado pela mineração e pode tragar a vida de todos?
SENHOR DRVC — Não tenho recado nenhum para mandar a ninguém. Acho que está havendo uma inversão de valores. Só fizemos o bem às cidades mineradoras e, principalmente, a Presidente Vargas, que era uma aldeiazinha feiosa, escura e “morrenta”. Acho que você, seu Cabrito imundo, é que deveria reformular as suas questões. Onde foi que roubou esse diploma de jornalista? E se insistir em mais uma questão vou mandar prendê-lo e cobrar multas por ofensas a mim dirigidas.
 
CABRITOObrigado ao senhor pela gentileza deste colóquio.
SENHOR DRVC — E se o senhor publicar o que acabamos de conversar, vou processá-lo. Ou, antes, mandar degolar você e dividi-lo em mil pedaços, como a Coroa Portuguesa fez com Filipe dos Santos.
 
J.S.

 

 

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