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CULTURA  
Drummond e a mineração
O poeta e Itabira, de José Miguel Wisnik 28/07/2018

Em sua primeira viagem a Itabira, terra natal do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), José Miguel Wisnik foi surpreendido pelo impacto da exploração de minério na paisagem da cidade, que marca profundamente a poesia do escritor mineiro. “Eu não sabia nem ninguém nunca havia me dito que o pico do Cauê tinha desaparecido e que, em vez de uma montanha, existe uma cratera”, relata o músico, ensaísta, compositor e professor de literatura brasileira da Universidade de São Paulo. 
 
Ele esteve lá em 2014 e conta que o choque provocado pelo contato com a realidade local o estimulou a reler a obra de Drummond. “Eu tive a sensação de que aquilo rebatia na poesia dele. A visão do pico do Cauê é uma imagem matricial na história de Drummond. A casa onde ele morava na infância estava voltada para uma montanha que não existe mais”, afirma Wisnik.
 
A ideia de revisitar os poemas de Drummond, aliada a uma pesquisa histórica sobre a mineração em Minas Gerais, deu origem ao livro “Maquinação do Mundo”, que será lançado neste sábado (28) na Livraria Scriptum. O título contempla um ensaio dividido em três partes: “O espírito do lugar”, “Maquinações minerais” e “A máquina poética”. Nestas, ele alinhava reflexões que viabilizam leituras de textos consagrados, como o poema “A Máquina do Mundo”, a partir do olhar para os efeitos da atividade mineradora.
 
“Essa pesquisa, por exemplo, revelou que o momento em que Drummond escreveu ‘A Máquina do Mundo’ coincidiu com a ocasião em que ele viu pela primeira vez a dinamitação do pico do Cauê, durante uma viagem a Itabira motivada pela doença de sua mãe. Ele chegou na cidade de avião e conseguiu ter, do alto, uma visão que até então nunca havia capturado daquela região e de Minas Gerais”, completa Wisnik.
 
A própria dilapidação das riquezas naturais de Itabira foi um dos motivos que afastaram Drummond de sua cidade. Realizada em 1948, aquela foi a última visita que o poeta fez a sua terra natal até o fim de sua vida. “A ironia talvez resida no fato de que talvez poucos poetas tenham uma relação tão profunda com seu lugar de origem como Drummond – desde o começo até o fim de sua obra”, observa Wisnik.
 
Essa importância, para o pesquisador, tem a ver com a posição que a cidade ocupava no cenário nacional a partir do início do século XX, quando a extração de minério começou ali. Daquele momento em diante, Itabira passou a figurar no centro de uma discussão nacional, em que, de um lado situavam-se defensores da livre exploração desses insumos por companhias estrangeiras, e, de outro, manifestavam-se apoiadores do desenvolvimento de uma siderurgia brasileira.
 
“A companhia Vale do Rio Doce foi criada, em 1942, especificamente para explorar o pico do Cauê. Durante a guerra, Getúlio Vargas aproveitou a ocasião para estabelecer um acordo com os Estados Unidos e a Inglaterra. Ele conseguiu empréstimos para construir uma siderurgia em Volta Redonda (RJ) e colocou Itabira como polo exportador. O minério de ferro extraído ali foi destinado à indústria bélica inglesa. Ou seja, o que o Brasil tinha para oferecer era o pico do Cauê”, pontua Wisnik.
 
Antes da Vale do Rio Doce, contudo, desde 1911, a companhia anglo-americana Itabira Iron Ore explorava minério em Itabira. “A história mostra que esse lugar provinciano já estava conectado com o mundo. Ali chegavam produtos importantes que abasteciam os estrangeiros e os desejos da família de Drummond, interessada nas novidades que vinham do Rio. Havia uma espécie de ‘sentimento do mundo’ despertado por essas mercadorias”, comenta Wisnik.
 
 
Problemas que ainda persistem
Além dos poemas de Drummond, José Miguel Wisnik pesquisou os artigos de jornal e as crônicas do poeta, e nessas ele critica o caráter predatório da atividade mineradora em Minas Gerais. “Em algum desses textos ele diz que a indústria mineradora é ladra, porque ela cava buracos e não deixa nada no lugar. Depois que esgota determinada região, ela parte para outra. Ele fez afirmações que são inteiramente contemporâneas”, detalha Wisnik. 
 
Em “Maquinação do Mundo”, o ensaísta, inclusive, tece paralelos entre a destruição da paisagem de Itabira e o rompimento da barragem em Mariana, em 2015, que, a seu ver “é uma explicitação dos mesmos problemas tratados por Drummond”.
 
“Naquela época, não existia o discurso ecológico que vai surgir depois, na década de 60. E, antes disso, Drummond já apontava como algumas áreas eram exploradas sem receber contrapartida nenhuma, ficando apenas com os malefícios da mineração”, completa Wisnik.
 
“Maquinação do Mundo” (Cia. das Letras, 304 págs., R$ 64,90), será lançado neste sábado (28) por José Miguel Wisnik, às 11h, na Livraria Scriptum (rua Fernandes Tourinho, 99, Savassi).
 
Com O Tempo/Carlos Andrei Siquara

 

 

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