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Boa noite - Itabira, sábado, 21 de setembro de 2019   NOTÍCIA SECA CONTATO

CULTURA  
UM DIA DE GLÓRIA NA HISTÓRIA
São Sebastião do Rio Preto, o local 30/01/2019

 

O tema de hoje é o mesmo de anteontem e ontem.  Anteontem, muitos  amigos e admiradores de Conceição Maia abriram seu livro “Ciclos” nas páginas 129 e 130, e estamparam  a crônica sobre o dia em que ela e sua irmã Lúcia Garcia Maia Moraes retornaram de Ferros portando seus sonhados diplomas de normalistas. Ontem, contei  a versão dela e tentei fazer um paralelo entre o fato com o mau tratamento dado ao professor hoje em dia.

 

Então, Maia viu e, hoje. vai a minha visão daquele inédito acontecimento. É preciso repeti-lo amiudadas vezes (o registro do fato) para que as pessoas antevejam o rumo do mundo e procurem endireitá-lo. Vamos ao fato.

 

 Estamos em novembro de 1950, não vou precisar o dia. Só sei que sou ainda plenamente analfabeto, com meus cinco anos e alguns meses  de  idade. Naquele tempo era proibido que uma criança aprendesse a ler antes dos sete anos e para mim já era um martírio.

 

Mas olhos de ver e sentidos de entender, isso eu dominava. Aquele era um comum dia útil de semana, acho que uma quinta-feira, diferente dos domingos de missas e procissões, mas parecia feriado nacional. A banda de meu avô Godofredo, apelidada de “furiosa”, racha seus trombones, saxes, pistons, bombos, prato e tarol ruas acima. E tocava dobrados inesquecíveis como a famosa “Canção do Exército”, que começava assim: “Nós somos da Pátria a guarda/, fiéis soldados/ por ela amados...” — até eu conseguia soletrar.

 

Na porta de uma casa qualquer, na Rua do Bonfim, há a parada, o “descansar”, e saem os acordes do “Hino Nacional Brasileiro”. Todos em posição de “sentido”, ressoam as  notas balbuciantes de uma letra quase ininteligível, mas compartilhada fielmente.

 

A pergunta que precisava fazer e não conseguia me deixava curioso: o que estaria acontecendo ali no alto do Bom fim, que dava para o cemitério? Na frente da casa uma selaria ou oficina de couros, ao lado uma sala de corte e costura. Ao centro a porta de entrada, onde duas figuras que se impunham: Luiz José de França, que todos chamavam de Lulu Garcia; e Dona Izaura (acho que com z mesmo) Guaraciaba França, ambos surpresos e sorridentes.

 

Havia duas razões ocultas, por quem o  tilintar da Banda do Godó e da Marujada de Raimundo Guarangui (esta não citada por Maia no seu livro) se movimentavam. E também foguetes pipocavam no céu sebastianense, acesos na ponta, sem medo, pelo Sacristão Tó. Além de tudo, o povo na rua, acenando com bandeirinhas e bandeirolas, havia um júbilo unânime tomando conta de todos os sebastianenses, homens, mulheres e crianças.

 

Duas meninas ainda brotinhos, Lúcia com menos de 20, e Conceição em plenos 17, têm guardados, com carinho, no fundo da mala, que chega num burro-cargueiro, seus valorosos diplomas. Estão, agora, aptas a assumir duas cadeiras de professoras na Escolas Reunidas Nossa Senhora das Graças da pequena aldeia. Um orgulho imenso estoura no peito dos moradores da Vila pertencente ao município de Conceição do Mato Dentro. Diria que cada humilde habitante do arraial se sentia um mestre ou um doutor por receber duas mestras e doutoras. Até aquela data, sem tirar o mérito de cada lutadora, as aulas eram ministradas por leigas, restando apenas três letradas, formadas, preparadas: Dona Maricas, a diretora, Maria Lina (Neném da Maricas) e Tia Ninita.

 

A festa improvisada foi um luxo.  Não me lembro, todavia, dos discursos. Mas eles retumbam também do alto da escadaria. Alunos cantam e gritam vivas. A banda continua brindando o povo com seus dobrados, depois valsas e o famoso “parabéns pra você!” Ao retornar, no fim da festa, marchando rua abaixo, segue o meu avô Godó soprando no seu “pé de mamão”  o mesmo dobrado da subida: “... A paz queremos com fervor/, a guerra só nos causa dor. Porém, se a pátria amada for um dia ultrajada/ lutaremos sem temor”.

 

Saltamos para este 2019 e vem a pergunta de supetão: alguém se lembra de quando um professor, ou uma professora, foi devidamente reconhecido (a) neste país à semelhança do fato ocorrido em São Sebastião do Rio Preto? Aquele que tiver o fato a registrar e que for de um passado não muito distante,  me conte, por favor. Carecemos de atos como aquele de 1950.

 

E viva Lúcia Garcia Maia Moraes e Conceição Maia dos Santos! Maia as  relembra em “Ciclos” que acaba de chegar aos leitores do mundo.

 

José Sana

Em 30/01/2019

(Fotos: Divulgação e reprodução de pintura a óleo de Márcio Freitas)

 


 

 

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