Se cada um de nós tem um pedaço no Pico do Cauê, como diz em seu poema “Itabira” (1930) o poeta Carlos Drummond de Andrade, hoje me encontrei, numa frequentada papelaria, no centro de Itabira, com uma parte de nosso corpo e de nossa alma. Retrocedo. O Cauê se foi. E ninguém dá notícia da parte capturada. Estados Unidos, Japão, Alemanha, China, sei lá, tornaram-na bala de canhão, míssil, tampa de vasilha de coar café, tacho de rapadura. Mas aqui continuamos sendo todos de ferro, as ferraduras não batem mais, os meninos, sim, vão para a escola. Tutu Caramujo se foi, mas deixou moluscos de verdade perambulando pela avenida mais chique da urbe.
Procurei esse pedaço do Cauê por todos os lados e hoje achei, ambos nós, emocionados. Havia me falado dele outro que, prematuramente, foi-se para o Além, meu inesquecível amigo Marconi Ferreira Serafim, sobrinho-neto do personagem Antônio Alves de Araújo, o Caramujo. Para encontrar o meu amigo citado por Marconi, virei Itabira de pernas pro ar. Em seguida, três figuras amigas e respeitadas me ajudaram nesta busca: Rose Gonçalves, Sueli Viana e Gabriel Quintão. A comoção foi grandiosíssima na LR Papelaria e Copiadora, onde estava para um rápido servicinho. E fui surpreendido por aquela figura que, como eu, tornou-se metal do outro lado do planeta e comoção aqui.
Pensamentos e mais pensamentos me afligiram. Primeiro, “se eu fosse vereador” (expressão do inesquecível Zé Nova Era) copiaria o trabalho que esse meu amigo fazia. Chamado por muitos de analfabeto, ele ministrava frequentes aulas de cidadania. Segundo, lembro-me que era o molde certo do homem público, espalhava por seu redor a coragem que lhe acometia. Repetia sempre do alto de qualquer tribuna a frase que cunhou a sua vida: “Eu estudei e me formei na faculdade das dificuldades da vida”.
Nosso ex-pedaço do Cauê começou a vida profissional fabricando e vendendo doces, de porta em porta, fato que lhe rendeu um apelido inarredável. Criou um bairro na cidade, a que se denomina Conjunto Habitacional Popular de Itabira (Coapi). Está lá, mora nesse aconchego sob os cuidados de uma sobrinha, Cidinha da Coapi, como é conhecida. Eleito vereador em 1976/82, tinha sempre sua inscrição registrada na apresentação de projetos interessantes. Para não citar tantos e tantos esforços que fez como representante do povo, criou a Cooperativa Mista Agroindustrial dos Plantadores de Cana da Região Centro-Leste de Minas Gerais Ltda (Coagrican), que sobreviveu por um tempo e chegou a produzir e distribuir o produto acabado para postos de combustíveis.
Seu nome completo, de cartório e pia batismal é Raimundo Geraldo Gonçalves, conhecidíssimo como Raimundo Doceiro. Há curibocas por aí que apresentam currículos como se fossem conquistas para o povo. Desde os tempos da descoberta da juntada de nossos pedaços levados por vagões e frotas de navios e transformados em vasilhames, geladeiras, microondas e outros utensílios, Doceiro vinha abrindo espaços para ver Itabira reagir diante da exploração que é a mineração isolada. Deu exemplos e mais exemplos.
Voltando ao termo “se eu fosse vereador”, convidaria Raimundo Geraldo Gonçalves para proferir uma palestra no plenário da Câmara Municipal de Itabira. Tenho a certeza de que deixaria gravado agora e para sempre, além de sua característica humildade, mostraria o sistema que governa a cidadania e um único termo que mudaria para sempre a cabeça de políticos e do povo itabirano e que foi exatamente o que encontrei na papelaria: espírito público
José Sana
Foto: N.S.
06/05/2026












