0

A história é muito mais linda se escrita do princípio ao alto. Por isso vou começar na prateleira de baixo, como sempre me inspirou o grande jornalista Chico Maia, esse que tudo indica ser descendente do fundador do lugar, João da Silva Maia. Aí o “Padroeiro abençoa esse mimoso rincão” e entro eu, insistindo que é a nossa maior salvação;

Nasci em São Sebastião do Rio Preto, Minas Gerais, uma das menores cidades do mundo, com pouco mais de 1 mil habitantes. Antigamente era um arraial populoso, informa a Revista do “Archivo Publico Mineiro de 1899: 2.373 habitantes contados um a um e não no chute, ou “por alto”, como hoje fazem.

 

Se tenho a liberdade de começar, opto pela escolha de  meu compadre e amigo, companheiro de estradas de cavalos, professor de arado tocado a boi. Refiro-me a  José Fernandes Soares, conhecido como Zé Pirulito, figura popularíssima, cuja inteligência valia a pena ser observada. Contei sua história na Academia Mineira de Letras para Murilo Badaró e seus acadêmicos, que se deslumbraram.

Participantes da Seresta de Maio. Zé Pirulito (de chapéu) ao meu lado e eu com um “cumé qui chama” na mão

CONVERSANDO COM BOVINOS

 

Zé Pirulito nasceu em São Sebastião do Rio “Cumé qui Chama”. Inventou, sem estudos (ele só sabia ler, escrever e contar a meia boca, era um homem do campo.  Usava mil vezes por dia, sem exagero, uma frase que representava todos os sentidos da língua portuguesa. Faleceu aos 85 anos, honrado por Deus neste atendimento: “Que eu não dê trabalho a quem quer que seja na minha velhice”, repetia sempre. Casou-se com Sebastiana Soares  e tiveram 12 filhos. Não conhecia nem pai nem mãe, foi criado por Godofredo Cândido D’Almeida (Seu Godó) e por José Cândido Ferreira de Almeida (Zezé Godó) e trabalhou para Sebastião Cândido Ferreira de Almeida (Tãozim Godó).

 

Sua função no espaço chamado Retiro São José pertencia ao espólio de Godofredo e Sinhá do Godó. Aí residiram dados ocultos: Seu Godó e Dona Sinhá  tiveram 15 filhos (afirmativa lúcida e repetida de Raimunda Cândida de Almeida, a Irmã Míriam, que pertencia à Congregação de Santa Rita de Cássia, a quarta filha do casal descendente de portugueses.

 

Na roça capinando, roçando, arando terra (eu cheguei a ser seu ajudante na guia de bois. acredite quem quiser). Tinha um dom impressionante: algum visitante ia chegando ao curral e ouvia conversas em que predominava a voz dele, o Pirulito (apelido de criança desde quando gostava de chupar balas). O visitante, então, ouvindo seus monólogos, já sabia o que ele fazia, ordenhava vacas.

— Rosinha, hoje cê não vai pirraçar igual a ontem não, né?

— Benitinha, cê trata de não esconder leite, viu bunitinha!

— Oi Binim tão maluquinho, Benitinho. Os batizados do gado ele fazia com total esmero. Só faltava o ‘cumé qui chama’ para benzer os chifres bovinos.

 

No entanto, era comum, também, quando Pirulito se transformava e tornava-se bravo. Xingava nomes feios (vou economizar porque ele era mais desalmado que compassivo  As vacas pareciam entender a raiva do patrão e acostumaram-se a dar o troco. Zé esquecia, às vezes de atar o rabo da bovina no momento da ordenha. E sabem o que recebia de troco? Boas rabanadas que lhe faziam gritar em réplica o f.d.p.

 

“CUMÉ QUI CHAMA”

 

Era assim o dia a dia que presenciei muito, com valioso prazer e real aproveitamento, mesmo com meus problemas auditivos. Ele caprichava em resumir sempre suas histórias e estórias. Veja este papo:

— “Oi, Bastiana, traz pra mim o ‘cumé qui chama’ que estou atrasado”.

— “Onde esse ‘cumé qui chama tá?” — respondia a esposa, nem proferindo mais alguma palavra, pois já dava uma pergunta retórica, isto é, com outro questionamento.

— “Olha aí, de baixo do ‘cumé qui chama’, só pode estar lá”.

 

E assim os diálogos seguiam, nem eram interrompidos e sempre bem-entendidos.

Mas quando o Zé conversava com algum estranho, seus  neologismos constavam de mais exigências, seja nos gestos ou nos esforços para explicações. A exemplo desta conversa:

— “Cês foran na ‘cumé qui chama’, Zezé com o Fernando e sua mãe?”

— “Fomos não. Perdi a ‘cumé qui chama’ de manhã. Quando cheguei não era o ‘cumé qui chama’ que celebrava, aí rachei fora”.

— “Qui hora é a outra ‘cumé qui chama’? É de noite ou de dia?”

— “Sei não, vou saber do ‘cumé qui chama’ e te falo, depois canta o  hino bonito do ‘cumé qui chama’”.

 

Esse ‘cumé qui chama’ foi interessante, ocorreu em Itabira. A prefeita Andréa Otone, notável realizadora que transpira  otimismo, disse a mim e ao vereador (esqueci-me de dizer que Fernando é parlamentar: “Agora o nome oficial dele é ‘Fernando Cumé Qui Chama’ e fim de papo”. Está batizado o novo membro do poder legislativo sebastianense.

 

José Sana

Em 20/01/2026

Fotos: FS.

NS
José Sana, jornalista, historiador, graduado em Letras, nasceu em São Sebastião do Rio Preto, reside em Itabira desde 1966.

    TEM UM MARCO ANTÔNIO NO MEIO DO CAMINHO

    Matéria Anterior
    0 0 votes
    Article Rating
    Subscribe
    Notify of
    guest
    0 Comentários
    Oldest
    Newest Most Voted
    Inline Feedbacks
    View all comments

    Você também pode gostar

    Mais em Cidades