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Quantos estudiosos de Carlos Drummond de Andrade tentaram entender um poema simples e até riram dele? Muito criticado, seis anos após a Semana da Arte Moderna de 1922, em São Paulo, diria até vilipendiado, o itabirano não se deteve  ante a achincalha que a crítica lhe impunha. Publicado na revista Antropologia (1928), republicado na obra drummondiana Alguma Poesia (1930),  poucos acreditavam que se tornaria um dos ponto-chaves da mudança drástica literária da escola `Parnasiana  para a Modernista.

 

“Una parola al saggio è sufficiente”(Para bom entendedor, meia palavra basta), dizia meu bisavô italiano, Giovanni Sanna,  lá pela década de 1950. Aí muitos já se calavam ainda diante do óbvio. Imaginem que somente agora (2026) podemos entender tanto o provérbio quanto o poeminha drummondiano!

 

Mais do que um fato que ocorreria a partir de 2021, fecha o raciocínio  para a perspicácia do cuidadoso com a língua e nem é preciso completar, revelando uma profecia, que manteve seu sigilo. Diria que Drummond imitava o alquimista, vidente e médico francês Michel de Nostradamus (1503-1566) ao permanecer de boca fechada.  “No meio do caminho” é o icônico título do  verso. Diria que tal poesia  fosse uma “centúria drummondiana” (o neologismo é meu)…

 

DESAFIO FORA DO COMUM QUASE REALIZADO

 

A partir da emancipação do distrito (1833 e não 1848), entrando na história o americano Percival Farquhar (1864-1953); passando pelas fábricas de tecidos da Gabiroba (1876) e Pedreira (1878); das forjas de ferro, que sustentavam o arraial de Itabira do Mato Dentro (1808 a 1888); passando pela inauguração da Estrada de Ferro Vitória-Minas (1904); pela chegada das irmãs da Congregação de Nossa Senhora das Dores (1923); virando a serra no ciclo do ouro que não se revelou rentável  como se previa. Desde a  notável descoberta do Pico do Cauê, aí estoura  uma festa com o grito vindo de um congresso mundial em Estocolmo (Suécia/1910); políticos e empreendedores  iniciavam a discussão em torno do seguinte tema: qual a vocação econômica para a nova cidade com a força de  conter o Bolsão de Pobreza, anunciado pela própria Companhia? Ou Itabira será  mesmo uma aldeia como previu, no ano 2000, na cara de políticos itabiranos, o então presidente da Vale, Jorio Dauster? (A frase dele foi esta: “Se não fosse a Vale Itabira seria uma aldeia”).  Jornalistas, radialistas, comerciantes, todos soltaram traques e bombas em resposta ao executivo da mineradora.

 

O desafio perdurou e  alguns políticos tentaram impor a sua característica de esforço e responsabilidade. Por exemplo, Olímpio Guerra povoou o Distrito Industrial, inaugurado anteriormente  por José Maurício Silva na instalação de uma usina de ferro-gusa; Luiz Menezes fez melhorias no espaço, ensaiou o Posto Agropecuário e deu entrada em  projetos; Jackson Tavares buscou um dos maiores construtores de montadoras de automóveis, vindo da Alemanha,  Wolgang Sauer; Ronaldo Magalhães teve a visão de preparar um trio de total empreendedorismo na abertura do Parque Científico e Tecnológico, na ideia que poderia estar também de pé do Porto Seco e do Aeroporto Industrial. E quase fechou com os chineses.

 

E João Izael Querino acertou o alvo, criando a Cidade Universitária com os passos concretos da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), que acompanhei de perto desde dezenas de contatos, por intermédio do consultor especial, em Itajubá e em Sophia Antipolis, na França, o real e incontestável modelo de um futuro próspero para Itabira. A experiência de Renato Aquino Faria Nunes, então reitor da universidade, comandou o espetáculo. Estive no Sul da França, peguei, apalpei, farejei: em 40 anos se fez o progresso que vale dez vezes mais. Incontestável que alguém, uma rocha intransponível entrou com sua ignorância e deixou até agora as mesmas ideias de tempos arqueológicos, para renegar e para estampar a sua ignorância.

 

DESVIO DE ROTA OU UMA PEDRA NO CAMINHO

“A desgraça não anda a cavalo” é um provérbio popular que, além de tudo mostra que o mal (ou MAL) chega  a jato. Ele tinha saído sem explicação do Cruzeiro Esporte Clube, onde teria ofertado sua desinteligência. Os botecos falam que “fumou maconha estragada”. Dizendo-se e contradizendo-se  de direita e esquerda, cada hora uma conveniência, bateu na porta de Zema, no governo de Minas Gerais e ganhou um cargo de “aspone” na Centrais Elétricas de Minas Gerais (Cemig). Infelizmente, o ex-deputado Bernardo Mucida, que tinha na mão a eleição praticamente garantida para prefeito, desistiu e entregou-lhe a oportunidade de ser alguém na terra amada (ou odiada?).

 

Olhem aí o desvio de rota, o fato incrível que deixa Itabira nos domínios da incerteza. Ele chegou, fazendo mil promessas, garantindo que seu partido político seria “somente Itabira”. Prometeu o futuro, até o passado, fez do presente um supremo blá-blá-blá. O discurso de posse estourou as rochas ainda existentes em Itabira, de rejeito de minério ex-ferro, empolgante ditado por alguém vindo, segundo ele (ela) da Grécia Antiga, Aí fica claro que o pau mandado era um sofista, daqueles que ficavam na pólis buscando enganar  Atenas, Esparta, Tebas, Corinto e se infiltrando até em Roma .

 

 

Nada mais claro para o entendedor médio: o sujeito pegou os trilhos itabiranos engrenados e nem procurou saber se Itabira tinha mais de 300 anos de vida a serem respeitados e elevou a demagogia à raiz quadrada do tempo, comprou uma máquina de moer dinheiro e subiu nos montes de cupim, falando mais que papagaio maltratado, tal como o povo foi pisoteado ferozmente. Atrasou Itabira mais que seu tempo de vida, queimando a maior arrecadação até agora arrecada no município, 5 vezes 5, ou seja R$ 5 bilhões por 5 anos, estes irrecuperáveis. Se procurar esse sofista agora, como diz um de seus ex-consultores, “ele está na prefeitura, brincando de menino grande, arrastando-se no chão”

 

Nenhuma aos mais de mil “cobras”, trazidas e criadas por currículos suntuosos,  procuraram saber se Itabira não tinha um projeto ou vários projetos para as novas gerações que batem às nossas portas. No lugar exato do futuro de Itabira, ele sonha com praças, festanças, enganando também  esportistas com torneio de três meses ao ano, fingindo que o Valeriodoce ainda não morreu. Outras casas ainda serão pintadas, e escadarias e até barrancos também levarão tintas pagas pelo poder público. Então, imaginem: a terra drummondiana caminhava para ser a Cidade Universitária, repetindo, e como vem sendo negada a Unifei, quando ele, o herói dos que adoram serem enganados, beber uma dose a mais de uísque para garantir que é mesmo contra ela. Para virar Cidade Fantasma.

 

E agora, José? Recorro de novo a Drummond que previu a rocha no meio do caminho. Estamos na porta do Bolsão de Pobreza e aí corremos sério perigo, por isso vou declamar uma estrofe de verso parecida com algo do inigualável poeta:

 

“Existe um Marco Antônio no meio do caminho. No meio do caminho plantou-se  um Marco Antônio inarredável. Há um Marco Antônio antidemocrático no meio do caminho. No meio do caminho tem um tal Marco Antônio”.

 

Ele e seus forasteiros garantem que, por no mínimo cem anos, existirá um Marco Antônio no meio da estrada e ninguém passa. Deus salve até um Marco Antônio para que ele retire a pedra que está no meio do caminho. Enquanto isso, as suas fazendas terão um sugestivo nome dado pelo cidadão F.C.S.  “Boi que ri de nós” Aqui estou para, mais vezes estampar meu infinito amor por Itabira. Quando aqui cheguei, o senhor atual e eventual prefeito também aportava nas rochas de Ipoema, ou, vacilo agora, de Aliança.

 

José Sana

Em 14501/2026

Imagens: Ziraldo/ redes sociais

 

P.S: Esta é a abertura da segunda “caixa-preta”. São dez no meio do caminho.

NS
José Sana, jornalista, historiador, graduado em Letras, nasceu em São Sebastião do Rio Preto, reside em Itabira desde 1966.

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