Silêncio total no box e no hospital. “Paciente” (detesto dizer tal palavra) de mãos e pés mornos. Olhos fechados. Sendo alimentado, deduzo. Sedado. Chamo-o pelo nome e começo a falar, assim quando me ensinaram fazer em situação idêntica à de minha prima Raimunda Almeida Dias Quintão (Mundica), na noite de 20 de fevereiro de 2014, quando ela vivia numa aparente dispneia pré-agônica. Era, na verdade, uma agonia lenta e acelerada, simultaneamente. Último contato dela.
23 de março de 1989 já havia experimentado a dor: meu pai respira pela última vez no meu colo.
Quanto ao Edson, poderia ser o mesmo caso de partir para Deus, mas tentei pensar que agora não. Conversando com Dra. Kethelly Araújo, meus olhos atravessaram o brilho dos equipamentos renovados do HMCC, que me impressionaram, e se deram exatamente nos olhos dele, meio-claros, que piscavam normalmente e tocavam, à distância, nos meus.
Arrepiei-me integralmente, dos pés à cabeça, e chamei a atenção de Dr. Kethelly que estava impassível, transmitia calma e me disse: “Estamos programando que Edson ficará desperto neste horário… etc. e tal”. Olhei no relógio e eram exatamente 11 horas e 34 minutos. Anotei.
Depois dessas informações sobre a situação dele, a médica se despediu com as seguintes palavras: “Pretendemos tentar extubá-lo amanhã (24) às 9 horas da manhã, vamos estudar”. Fiz nova anotação para comunicar à família. Seria um momento decisivo.

MONÓLOGO TIPO DIÁLOGO
Eu — Edson, você está me ouvindo? A mim você reconheceu, né? Incerto da resposta, disse a ele nome, endereço e fi-lo dar um sinal. Com muito esforço porque os equipamentos o inibiam, entendi o seu “sim” e lamentei o obstáculo como se fosse um inocente, vilão de filme policial, ou um mocinho do faroeste. Li nos olhos dele que não estava com medo.
Entrou uma enfermeira (acho que técnica em Emfemagem) a quem tive a coragem de perguntar o seguinte:
Eu — Ele, meu primo, está de olhos abertos. Ele me olha para todo lado que vou. Você sabe, como sei, que ele está acordado, não é?
Ela aquiesceu-se. Mas eu quero saber se ele está consciente, se pensa, se entende as conversas que transcorrem aqui dentro?
Ela — Não sei. Pergunte à médica.
Eu — Você acha que ela sabe?
Ela — Pode saber que ele está nos vendo, mas acho que não tem muita consciência. Se está pensando deve ser complicado. Não sei te responder. Você tem que perguntar à médica.
Eu — Tudo bem (agradeci).
E entrou uma psicóloga, Luciana, cuja família conheço faz tempo. A nossa conversa foi outra. Edson já estava cansado, depois de ficar até as 13 horas de olhos abertos. Continuava assim.
Tive e tenho tudo na memória. Falamos sobre todos os filhos de minha Tia Magada e /Tio Antônio (pais dele): Élio (falecido), Edson, Edir, Edilon, Elair, Edvaldo (me fugiu momentaneamente da memória), Ernane, Edésio, Eliane, Eustáquio, Tunico e Fernando. Chega a médica, Dra. Kethelly Araújo (tive o capricho de anotar letra por letra). Muito atenciosa, Falou que ele estava programado para se despertar, ficar com os olhos abertos até dar sono.
Com a médica presente, fiz uma rajada de perguntas — quando ele ficará bom? Para quando está prevista extubação? O que pode acontecer quando isso ocorrer? Ele não está sentindo dores? Se der certo a extubação, quando ele terá “alta?” Qual a sua esperança sobre a vida dele? Etc. etc. etc. etc.
MONÓLOGO EMOCIONANTE
EU — Você está bem, Edson, falta sorrir (impossível por estar com a boca “amarrada”.
ELE — Pisca os olhos (nunca tinha reparado que eram meio-claros). Sua expressão é serena e eu me penalizo por isso. Este o momento de herói como eu via sempre na agonia do primo Marcos.
EU — Édson, sei que você gosta de futebol, já jogamos muito em vários campos (São Sebastião, Santo Antônio, Ferros, Carmésia, Borba Gato, Passabém, Santa Maria, Morro do Pila, entre tantas cidades. (ele pisca os olhos seguidamente, mais acelerado, demonstrando que gostaria de dizer alguma coisa a mais).
ELE — Diz, me acompanhando pelo box com os olhos, que fez um gol de placa em mim num jogo em Santo Antônio).
EU — Concordo que tenha feito vários golaços, mas digo que o tal não marcou, eu entortei-me todo e peguei a bola, tanto que o nosso jogador, Odilon, gritou do meio de campo a expressão “Oh, Gilmar”, uma alusão ao goleiro da Seleção Brasileira que fazia “pontes” geniais. Ele parecia concordar.
ELE — Edson piscava sem parar, mas cadenciado, como se quisesse perguntar pelos irmãos, ou pelo filho, Diego, e pela nora Thaís… entendi… Eles estavam ausentes naquele momento. Expliquei demoradamente.
EU — Eles foram para Morro do Pilar, precisaram cuidar de algumas tarefas, mas devem voltar hoje à noite ou amanhã de manhã. Eles sentiram que você está bem e surpresos com as informações que lhes dei sobre você, que está de olhos abertos.
ELE — Ele deu sinal com os olhos que me acompanhava quando saí de dentro do box e fui conversar com Dra.Kethelly e Luciana.
EU — Falei dos dias em que ele montava nas novilhas. Edilon tinha a coragem de montar as pequenas, mas você (Edson) topava fazer pular e dar guinadas nas grandes. A plateia (falava para ele) vibrava na varanda — Tio Antônio, Nitinho, Alféu, Antônio, Israel, Modesto e Inhô do Tanito — e cada um queria ver a minha “coragem”. Que nada! Me lembrei dos conselhos de minha mãe e de Tia Magda e fugi dessa peraltice.
ELE —Outra lembrança também foi da fabricação de cachaça. Íamos para a boca do alambique tomar uns goles da chamada “água fraca” , uma espécie de maturação para se chegar à “Bambuina”, a verdadeira cachaça fabricada e orgulho da Fazenda dos Bambus.
DIA DE INQUIETAÇÃO
Nove horas. Não tirava da cabeça esse horário. Seria o momento decisivo para a vida de meu primo. Não estava certo que ele seria extubado. Seria uma tentativa, disse-me claramente a médica. Mas eu tinha que seguir a orientação dela. Vamos lá.
Cheguei ao HMCC na manhã de 24/02/2026. Várias pessoas olhavam para mim. A princípio, não deu para sentir alguma desconfiança mas, aos poucos, a cabeça se tornou uma mesa giratória. Tirei a ficha de “visitante” e permaneci na ante-sala. Quase duas horas de espera com cumprimentos acelerados aos que passavam. Como já falei, sou mais conhecido que os vira-latas que vagueiam pelas ruas de Itabira e do Brasil
Onze horas. Arranquei-me da ante-sala e segui pelo longo corredor até um dos lavatórios para higienização. De mãos lavadas e de gel brilhante dei uns passos à frente e senti que alguém me acompanhava como se me conhecesse ou eu a conhecia. Parei, ela parou também. Perguntei seu nome e ela disse: “Míriam”. “Que bom que tenho uma prima chamada Míriam e até parece um pouco com você”. Ela sorriu e se manteve ao meu lado, mas adiantei uns passos e veio outra, cujo nome não anotei e que me “barrou”. Lembrei-me do ano de 1963, em João Monlevade, quando fui barrado no Carnaval no Clube Ideal.
ISOLADO NUMA SALA
Míriam, muito atenciosa, retornou a mim e me instalou numa sala em que havia apenas um assento disponível e lá me acomodou. Pediu para esperar ali que a psicóloga me atenderia. Achei estranho ter sido “barrado”, depois “instalado”, em seguida “acomodado”. Nada disso ocorrera nos dias anteriores nos quais lá estive, sozinho ou acompanhado. “Deixe de ser burro, Seu Zé, algo diferente aconteceu e você está dormindo de touca!” — disse de mim para mim, em silêncio, é claro.
De repente, vem Fernanda, a psicóloga (assim se apresentou). Não tinha lugar para assentar-se, agachou-se diante de mim, com dezenas de olhares nos fitando. E conversamos. Tentei obter dela uma informação, um motivo, uma palavra, mas obtinha apenas o seguinte: “Precisamos falar com o filho de Edson Sana de Morais, responsável pelo pai. Ele estava acompanhado de uma moça aqui, anteontem”. Respondi: “Ele se chama Diego Tomaz de Morais e é meu primo; a moça é namorada dele, é Thaís; aqui estou como novo representante de meu primo Édson até que mais alguém família aqui chegue; eles vêm a todas as visitas.” Ela insistiu e eu repliquei: “Veja o tempo lá fora. Eles foram a Morro do Pilar, muito longe e com grande parte da estrada de barro”.
Quase duas horas ali isolado, mandando mensagens para Diego e Marlete. Eles ficaram desconfiados, é claro! Eu nada podia falar mais, pois só aguardava notícias de meu primo Edson. Queria fazer se ele estava bem, ou mal…Que horror! A pressão arterial baixou, senti imediatamente, a vista escureceu e eu ali. Um senhor que estava por perto e ouviu as conversas, me chamou e disse: “Ponha nas mãos de Deus e Ele resolve”. Já estava.
ÉDSON, ENTÃO, PARTIU…
Uma turma de profissionais, femininas, me cercou como se fosse eu o artista principal do filme “World’s End Harem”, ficção científica de 2021, e me levou para a sala da Assistência Social. Todos assentados, meu coração disparado, à lá Ayrton Sena, cai o silêncio, ainda assim, elas esperaram que eu falasse primeiro. Nada falei.
O que fiz foi relembrar um tanto de vezes que ouvi um tanto de vozes me perguntarem um tantão disto: “Edson não tem parente aqui em Itabira que possa contatar”. E eu respondia vezes e mais vezes que sim, mas que àquela hora era difícil, chovia como nos velhos tempos, São Pedro sentiu o meu drama. Alguém me salvou: acho que foi Fernanda, psicóloga, de quem conheço a família faz anos.
“E aí”, disse uma voz feminina (masculino era somente eu). Silêncio. Todos assentados numa cadeira própria, eu rodeado de profissionais femininas. Uma delas me fez uma pergunta: “Você está me reconhecendo?” (retirou a máscara que a tornava anônima). Respondi: “Claro que sim; você é a médica Dra. Kethelly que me atendeu ontem no box em que meu primo estava, ou está”. E continuei: “Você me disse que tentariam extubar o Edson hoje às 9 horas. E estou querendo saber se houve o procedimento?” A resposta dela:
“Antes de fazermos a tentativa de extubação, ele teve uma parada cardíaca e não mais se recuperou”.
Foi naquele momento que senti uma enxurrada de dores no peito me atingir, fazendo soar até as costas (ou a costa). As dores da infecção viral chamada “Herpes Zóster”, que me acompanham faz muito tempo.
Agora a segunda dor: avisar a parentes e amigos.
E a terceira amargura: perder um amigo de infância e dos tempos atuais e primo em primeiro grau, verdadeiro irmão.
Sem mais. Descanse em paz, com Deus, Edson”
José Sana
Em 27/02/2026
Fotos/Imagens












