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Silêncio total no box e no hospital. “Paciente” (detesto dizer tal palavra) de mãos e pés mornos. Olhos fechados. Sendo alimentado, deduzo. Sedado. Chamo-o pelo nome e começo a falar, assim quando me ensinaram fazer  em situação idêntica à de minha prima Raimunda Almeida Dias Quintão (Mundica), na noite de 20 de fevereiro de 2014, quando ela vivia numa aparente  dispneia pré-agônica. Era, na verdade, uma agonia lenta e acelerada, simultaneamente. Último contato dela.

23 de março de 1979 já havia experimentado a dor: meu pai respira pela última vez no meu colo.

 

Quanto ao Édson, poderia ser o mesmo caso de partir para Deus, mas tentei pensar que agora não. Conversando com Dra. Kethelly Araújo, meus olhos atravessaram o brilho dos equipamentos renovados do HMCC, que me impressionaram, e se deram exatamente nos olhos dele, meio-claros, que piscavam normalmente e tocavam, à distância, nos meus.

 

Arrepiei-me integralmente, dos pés à cabeça, e chamei a atenção de Dr. Kethelly que estava impassível, transmitia calma e  me disse: “Estamos  programando que Édson ficará desperto neste horário… etc. e tal”. Olhei no relógio e eram exatamente 11 horas e 34 minutos. Anotei.

Depois dessas informações sobre a situação dele, a  médica se despediu com as seguintes palavras: “Pretendemos tentar extubá-lo amanhã (24) às 9 horas da manhã, vamos estudar”. Fiz nova anotação para comunicar à família. Seria um momento decisivo.

 

MONÓLOGO TIPO DIÁLOGO

Eu — Edson, você está me ouvindo? A mim você reconheceu, né? Incerto da resposta, disse a ele nome, endereço e fi-lo dar um sinal. Com muito esforço porque os equipamentos o inibiam, entendi o seu “sim” e  lamentei o obstáculo como se fosse um  inocente, vilão de filme policial, ou um mocinho do faroeste. Li nos olhos dele que não estava com medo.

Entrou uma enfermeira (acho que técnica) a quem tive a coragem de perguntar o seguinte:

Eu — Ele, meu primo, está de olhos abertos. Ele me olha para todo lado que vou. Você sabe, como sei, que ele está acordado, não é?

Ela aquiesceu-se. Mas eu quero saber se ele está consciente, se pensa, se entende as conversas que transcorrem aqui dentro?

Ela — Não sei. Pergunte à médica.

Eu — Você acha que ela sabe?

Ela — Pode saber que ele está nos vendo, mas acho que não tem muita consciência. Se está pensando deve ser complicado. Não sei te responder. Você tem que perguntar à médica.

Eu — Tudo bem (agradeci).

E entrou uma psicóloga, Luciana, cuja família conheço faz tempo. A nossa conversa foi outra. Edson já estava cansado, depois de ficar até as 13 horas de olhos abertos. Continuava assim.

 

Tive e tenho tudo na memória. Falamos sobre todos os filhos de minha Tia Magada e /Tio Antônio (pais dele): Élio (falecido), Edson, Edir, Edilon, Elair, Edvaldo (me fugiu momentaneamente da memória), Ernane, Edésio, Eliane, Eustáquio, Tunico e Fernando. Chega a médica, Dra. Kethelly  Araújo (tive o capricho de anotar letra por letra). Muito atenciosa, Falou que ele estava programado para se despertar, ficar com os olhos abertos até dar sono.

 

Com a médica presente, fiz uma rajada de perguntas — quando ele ficará bom? Para quando está prevista extubação? O que pode acontecer quando

NS
José Sana, jornalista, historiador, graduado em Letras, nasceu em São Sebastião do Rio Preto, reside em Itabira desde 1966.

    O QUE  SERIA “REINVENTAR ITABIRA?” MAIS TRÊS ANOS DE DESGOVERNO?

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