Simples homenagem a dois tios contemporâneos e sessentões do altar à vida feliz
Esta é a redação mais difícil que me é dada rabiscar em toda vida. Deixo qualquer rumo de literatura para ser mais real. Despenderei esforço maior porque se trata de algo em torno de 60 anos de que algo ocorreu. Vou tentar ser portador de fatos novos.
O primeiro fato novo é o título desta matéria. Imprimo uma frase de meus cinco anos a uma tia de sete. O textinho ficou gravado para sempre na memória de minha Vó Maria, que até os seus 100 anos o repetia para lembrar minha amizade de irmão com Mercês. Depois conto mais o que sapatos e choro renderam em meus quase 80 anos.
Em nossa vida, tinha tempo integral na casa de meus avós maternos. Para dizer com mais clareza, foi naquele casarão histórico que vivi o maior tempo de minha infância.
Aos poucos, irmãos e primos foram se juntando, mas não perdi o colo nem de Maria Bárbara, nem de nossa Avó, nem de minha tia que, com outros tios, proibiram-me de chamá-los pelo parentesco.
Sempre ao lado de Mercês caía nos buracos do pasto cheio de carrapatos. Tentava acompanhá-la e só dava nisso: dentro de mais uma cava para demonstrar moleza. A vida inteira Gino cobrava que me salvou muitas vezes “e que me arrependi disso” (rsrsrsrs)
Graças à Mercês fui estudar em Guanhães. Ela convenceu meu Avô a entrar no caso e Seraphim marchou pela rua de baixo até a rua de cima para botar na cabeça de meu pai a ideia de seguir os estudos. E coitada, ela cuidava de tudo em mim: roupas, cama, alimentação e apertos com minhas estrepolias. E nada de brigas entre nós.
Foi em Guanhães que descobri que havia uma “paixãozinha” em sua vida. Começou, portanto, aos 15 anos, sem comemoração. Ela deixou escapar isso. Sem andamento o observatório porque fui exportado para Conceição do Mato Dentro, onde comi o pão amassado pelo diabo. Sei que Wander discorda, mas ele sempre se comportava ao meu avesso e era estimado pelos regentes.
Encontrei-me com ele, então, no Ginásio São Francisco. Lá percebi que gostava de mim e não gostava nada de mim. Nosso relacionamento bom funcionava na temperatura do romance. Agradava-me quando estava bem de namoro e até me vaiava nos campos de futebol se estivesse com o namoro rompido.
Separamo-nos uma época, então: Mercês foi para João Monlevade e depois Ferros. Wander para Belo Horizonte, onde voltamos a nos encontrar no Colégio Anchieta. Ele morando na Rua do Serro número 200 e eu na Mato Grosso 480. Até que veio o casamento de ambos.
Preparação para o casório: Mercês não conhecia Belo Horizonte. Levei-a a um salão de beleza localizado no Edifício Dantês, Avenida Amazonas, quase Praça Sete. Não entrei, pois só havia mulheres lá dentro. Fazer o quê? Fiquei rondando pelas imediações, esperando.
Depois de mais de duas horas, ela saiu. Veio uma moça “desconhecida” à minha direção.
Achei estranho uma moça ficar olhando para mim com tanta vontade de me conhecer. Até que avançou demais e sacudiu os meus braços. Era exatamente Maria das Mercês Sana, completamente renovada e transformada, numa sexta-feira, para casamento no dia seguinte.
Falando um pouco mais de Wander, meu pai lhe mostrou meu boletim do primeiro semestre de 1959 apinhado de notas em cor vermelha. Parecia sangue que escorria nos papéis. Ambos de cara feia debruçaram-se nas notas que nunca tinha tido na vida estudantil. Papai perguntou a ele:
— Dá pra ele passar?
Wander fez mais careta ainda e respondeu:
— É muito difícil.
Ficaram conversando sobre o “muito difícil” e corri à Igreja para fazer uma promessa: “Se passar de ano rezarei mil Ave-Marias no Natal”. Disse ao Menino Jesus. Enfrentei o ano e estudei como se lutasse contra uma prisão perpétua. No Natal, além de rezar o tanto de Ave-Marias, levei Marcos para rezar comigo na casa de minha Avó Maria. Pagava a promessa. Fui aprovado diretamente à quarta série.
Enquanto Mercês me levou para Guanhães, Wander ficou no meu encalço e tomava mais da metade de meus salários, dizendo que eram valores emprestados. Todo mês nos encontrávamos, seja por suas viagens a São Sebastião, seja por encontros de futebol.
Um dia me aproximei dele e lhe disse:
— Estou noivo e vou me casar em janeiro. Você e Mercês serão meus padrinhos.
— Que luxo! Sejam felizes! Já faz cinco anos que foi padrinho de Mercês.
— Agora eu preciso de dinheiro. Encontrei uma casa para comprar no jeitinho, exatamente como queríamos. O preço é Cr$ 8 milhões e eu tenho só um milhão e pouquinho.
— Vou sentar ali e ver quanto lhe devo, acho que beirando esse valor.
Uma semana depois ele chegava a São Sebastião com mais de Cr$ 7 milhões, embrulhados num jornal “Estado de Minas”. Estavam no alforge de sua condução animal.
Não perdemos o pique de encontros, como, por exemplo nas cidades em que eles moraram até fixarem-se em Belo Horizonte. E nasciam seus cinco filhos — Raquel, Wagner, Ricardo, Wandinho e Virgílius — depois 11 netos. Não dou conta dos nomes deles.
Só quero concluir, voltando ao título desta página para dizer ao casal que não nos esquecemos, apesar de estarem minguados os nossos contatos. Vida de aposentado é assim mesmo.
E quero, também lembrar o quanto me recordo da infância com Mercês, o que rendeu para a vida toda. Sempre quando passo diante de uma loja de calçados Marlete diz que estou precisando comprar um para isso, aquilo, viajar. Costuma ir a uma loja e trazer uma pilha para experimentar. Voltam todos à antiga prateleira de onde saíram. Pois, basta lembrar o que dizia frequentemente à minha tia em 1949: “Mercês, este sapato me faz chorar toda hora”.
Eu era obrigado a usar sapatos porque me cunharam de doente, sem base e lógica. A vida mudou. Só não mudou meu ódio de sapatos, que me fazem chorar sozinho e sempre. De bom só a lembrança de minha tia, que ria, ria, ria, como uma verdadeira tia.
Abraços aos Sessentões
José Sana
Foto: Álbum de Família
Em 16/07/2025
PS.: 1. Maria Magno Sana, Vovó Maria, ouro-pretana, a inspiradora do dia desses sessentões, faria seus cento e tantos anos neste 16 de julho. Sabemos que se encontra em bom lugar, este é apenas um lembrete do que ela era para todos nós. Deus abençoe sempre este dia!
2. É muita história neste romance Mercês/Wander. Por exemplo, a nossa maturidade nos deu um presente. Batizamos Maria Inês de Didi e Tio Líbio. Eu com 12 anos e Mercês com 14. Às pressas porque estávamos indo para Guanhães. Segundo o padre local, teve que pedir licença ao Papa, que era Pio XII. Mas nada disso ocorreu. O patriarca da Igreja Católica nem ficou sabendo. Assim caminha a humanidade.
Linda história