Situada a 60 quilômetros de Itabira, pertencente naturalmente à sua região de influência, segundo a própria denominação implícita do novo prefeito de Itabira, Marco Antônio Lage, o ex-distrito de Conceição do Mato Dentro tem a sua história, assim como milhares de outros no mundo. Teve pompas e grande tradicionalismo, principalmente em festas pagãs, cívicas e religiosas.
Registros pesquisados por esta reportagem, com a ajuda de historiador, traduz o aparecimento de Cachoeira Alegre nos mapas do estado e do país. Assim, São Sebastião do Rio Preto não foge à regra. Alguns são escritos arquivados por museus ou bibliotecas e, ainda, livros do tombo, mantidos nas igrejas.
LIVRO DO TOMBO
Na Paróquia de São Sebastião do Rio Preto existem anotações no Livro do Tombo, cujo resumo é transcrito a seguir: “Em 1814, chegaram ao local três portugueses; João da Silva Maia, Alexandre Ferreira de Sá e José Guarda-Mor Fernandes das Mercês, como os bandeirantes daquele tempo, à procura de ouro. O fundador, João da Silva Maia, construiu uma Capela de São Sebastião às margens do Rio Preto, onde atualmente se localiza a sede, e confeccionou uma imagem do referido Santo, com madeira tirada das matas que existem na mesma região. O povoado recebeu a denominação de Cachoeira Alegre, depois São Sebastião do Cemitério e, mais tarde, São Sebastião do Rio Preto”.
ORIGEM E CRESCIMENTO
A Revista do Arquivo Público Mineiro (1899) foi mais uma fonte consultada e contém anotações com detalhes referentes à população, riquezas econômicas, questões de saúde e geográficas. Contudo, não se refere à cultura, como o folclore e a existência de comunidades quilombolas que existiam, segundo narrativas da população antiga, espalhada pela zona rural. Notícia Seca visitou cada uma das localidades, fez uma listagem de fazendas, algumas destruídas pelo tempo e outras ainda resistentes porque foram conservadas. Foi um trabalho, a princípio contratado pela Prefeitura mas, em seguida por ela própria desprezada. Avalie o leitor.
UMA CIDADÃ CHAMADA LUZIA CÂNDIDA
Acrescentando algo mais às anotações da Paróquia, e até mesmo definindo detalhes citados na Revista do Arquivo Público Mineiro (1899), a filha da cidade, Luzia Cândida Ferreira de Almeida Dias, falecida em 1997, escreveu: “A capela, construída por João da Silva Maia, inicialmente, foi no terreno onde se ergueu o sobrado de Paulo Juventino Ferreira, que esse adquiriu da antiga família Moura, depois vendida a Seraphim Sanna, natural de Ouro Preto, vindo de Passabém”.
No tempo dos Moura, ela foi reconstruída em forma da Igreja Matriz, a poucos metros, chamada mais tarde de Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Esta foi demolida pelo então pároco Padre Raul de Melo, em 1963.
Quando se deslocou a capela do cemitério para o alto do morro, escravos residentes nas fazendas da zona rural tomaram a iniciativa de reconstruir o sobrado com gigantescas peças de madeira de lei, entre as quais jacarandá em grandes dimensões. Até os nossos dias está resistente e pertence à família do ouro-pretano, que também militou como farmacêutico durante muitos anos até seus dias finais de vida, em São Sebastião do Rio Preto.
RICA CULTURA DE UM ARRAIAL
Luzia Cândida comandava grupos de teatro, bem como escrevia peças que eram apresentadas num espaço cedido pela Paróquia. Indo além de suas forças intelectuais, mesmo sem tempo, conseguia juntar adolescentes e crianças e formar grupos de Caboclinhos que abrilhantavam festas folclóricas e religiosas.
Ela também revelou que a população da zona rural sempre foi maior que a da sede do distrito ou do município. Também o Livro de Tombo da Paróquia contém dados do Censo do IBGE dos anos 1980: apenas 590 pessoas viviam na cidade e 1.189 moravam na roça. Até então, o êxodo rural não tinha o sentido zona rural-cidade, mas seguia o trajeto para Itabira, Sabará e Belo Horizonte.
GUARDAS DE MARUJOS
Todas as Guardas de Marujos então existentes nas localidades de Cauís, Banqueta e Engenho foram formadas praticamente por familiares de ex-escravos, financiadas por fazendeiros. Os três grupos abrilhantavam as festas não só na sede do distrito, como em outras cidades ou localidades. Assim como a zona rural era mais populosa, até mesmo uma Banda de Música, que pertencia ao fazendeiro Marciano Moura, era sediada na localidade de Porto, situada a seis quilômetros da sede. Somente a Banda do Godó, de Godofredo Cândido D’Almeida, tinha o seu endereço urbano, na rua do Rosário. E uma anotação à parte: eram bandas de música extremamente rivais e que quase chegavam às vias de fato por disputa de melhores dobrados e outras peças musicais. Além de som mais ensurdecedor.
A tendência do êxodo rural não era novidade em São Sebastião do Rio Preto, mas, sim, uma característica do desenvolvimento brasileiro. Contudo, mais forte era esse êxodo em virtude da mineração bem próxima, Itabira. O motivo central do êxodo provocou a quase completa paralisação da agricultura e da pecuária, que denunciavam o momento dramático de esvaziamento das roças no entorno. Assim, essa atratividade econômica vizinha destruiu também a cultura, o folclore, o tradicionalismo histórico.
As Marujadas então existentes e já citadas — Guarda de Marujos do Cauís, Guarda de Marujos do Engenho e Guarda de Marujos da Banqueta — começaram a ser atingidas frontalmente Dois dos entrevistados e acompanhados na atividade de militância em seus grupos — Élio Juventino Ferreira e Sebastião de Almeida Souza (este falecido recentemente) — abordaram o assunto várias vezes, lamentando a perda da identidade histórica da região.
A terceira entrevista foi além: Alaíde Graciano Ferreira, descendente do “Capitão” da extinta Marujada do Engenho, Raimundo Anastácio Silva, ou Raimundo Garangui. Alaíde, residente em General Carneiro, distrito de Sabará, neta do lendário Raimundo Garangui, tocou no tema Quilombos e Quilombolas. Deixa claro que as duas Guardas de Marujos que ajudou a criar em sua terra — a Nossa Senhora do Rosário e a São Sebastião — são originárias de grupos de negros chegados ao distrito, vindos de São Sebastião do Rio Preto, e que formaram famílias, rendendo hoje cerca de 200 praticantes da cultura afro em Sabará. Esse fenômeno o historiador denomina “exportação cultural”.
AINDA AS GUARDAS DE MAJUROS
Afirma Alaíde Graciano, sempre premiada em Sabará por suas atividades culturais relevantes o seguinte: “Eu já pensei em arrumar um bom tempo dentro de minha vida atribulada para pesquisar tudo. Tenho interesse em conhecer os meus antepassados, os quais, seguimos com orgulho. É interessante saber como a Quilombola se deslocou para justamente o distrito em que nasci, que pertence a Sabará e acabo sendo membro do grupo. Isso muito me orgulha”.
Outra figura importante entrevistada é Maria Flor de Maio Ferreira Muzzi, são-sebastianense, filha ao fundador da centenária Guarda de Marujos de Nossa Senhora do Rosário. Diz ela que o seu pai, Paulo Juventino Ferreira, cumpriu essa tarefa, enquanto o neto, Élio Juventino Ferreira, reforça a certeza de que o avô custeava as despesas dos marujos, e o irmão dela, também filho do patriarca, Job Juventino Ferreira, se tornou Mestre ou Embaixador da Guarda de Marujos Nossa Senhora do Rosário. Paulo Juventino, que tinha uma loja na Vila de São Sebastião, era proveniente da zona rural. Hoje, na localidade de Cauís existe a Escola Municipal Paulo Juventino Ferreira em homenagem a ele e aos seus grandes feitos de cidadão principalmente conservador da cultura então existente.
RIQUEZA TAMBÉM ECONÔMICA
Antes do êxodo rural, a agricultura, pecuária e a agropecuária constituíam como fatores primordiais em toda a zona rural são-sebastianense. Não apenas no Cauís, onde se destacava o fazendeiro Orlando Juventino Ferreira, como ainda em outras localidades, a exemplo de Engenho, Sete, Rio Preto, Banqueta, Barra e outros pontos do mapa rural, com a produção de café, tabaco, cana de açúcar, milho, feijão, arroz, mandioca, batatas e bananas, registro que pode ser conferido no Arquivo Público Mineiro, em Belo Horionte (1899).
Tudo isso constituíam-se fatores que permitiam a vida de melhores condições no campo. A população do distrito em 1892 era de 2.924 almas, de acordo com o trabalho do recenseador Vicente Ferreira de Almeida (APM, 1899), sendo a tendência demonstrada assim: 25% na cidade e 75% na zona rural, a mesma distribuição registrada quase um século depois, segundo o Livro do Tombo da Igreja Matriz. Hoje, a zona rural está praticamente despovoada e a população total, segundo censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é de 1.613 (o IBGE não informa a separação rural/urbana, mas entendedores afirmam que a proporção é de 85% na zona urbana e os restantes 15% na zona rural).
AS SETE MARAVILHAS
Em 2012, a secretária Ana Maria Gonçalves, de Cultura, promoveu, via internet, um concurso para eleição das Sete Maravilhas de São Sebastião do Rio Preto. Receberam votações significativas os seguintes monumentos de rara beleza com votação de centenas de internautas:
— Coreto da Praça do Rosário,
— Cachoeira da Conquista,
— Quiosques da Prainha do Retiro,
— Mosaicos da Vanessa,
— Praias da Conquista,
— Cachoeira do Chuvisco (Rio de Peixe, divisa com Santo Antônio do Rio Abaixo
— Igreja Matriz de São Sebastião.
Venceram a disputa: Mosaicos da Vanessa, primeiro lugar, e Igreja Matriz de São Sebastião, segundo lugar. Os demais pontos turísticos receberam também grande votação.
José Sana/NS
Fontes: Livro do Tombo, arquivo de Luzia Cândida e Arquivo Público Mineiro.
Fotos: NS
Amei!
Sobre a agricultura de Sebastianense, faltou mencionar que lá funcionou uma pequena Cooperativa, que faliu porque os produtores de leite estavam desnatando o produto antes de enviar para a Cooperativa.
Vamos ter mais capítulos pela frente, viu Marilda? E esperamos contar com a sua ajuda. Combinado?
Bravo, rica história de SSebastião, minha terra natal!!!!
Obrigado pelo comentário. Abraço
Excelente matéria sobre São Sebastião do Rio Preto
Padre Dilton. Aprendemos História juntos, e com ótimos professores. Obrigado sempre.
Que história maravilhosa! Eu fui discípula da saudosa D. Luzia. Quantas peças de teatros e corações!… Qta saudade! Parabéns pela linda história!
Renata, obrigado pelo comentário e pelos elogios. Abraços.
História linda da minha amada são Sebastião do Rio Preto…
Oh conterrânea. Vc presente é importante. Gratíssimo. Abraço
Gratíssimo, Sibele!
Parabéns meu caro José Sana , pela sensibilidade e competência de sempre . Bom conhecer um pouco mais da origem dessa cidade e sua cultura . Que bom , pude ver de perto essas manifestações cívico religiosas em companhia principalmente de meu saudoso pai ( Emanuel da Maricas do Sô Tão do padre ) juntamente com meu tio José Lucas . Tenho várias sugestões para abordar na sequência : falar um pouco mais das bandas de músicas , dos batuques e batucadas , dos violeiros ( tive a alegria de ouvir o lendário Geraldo pachiquim ) , dos marujeiros e marujadas entre outros , Poderia abordar vários sebastianeses ilustres ( não vou mencionar pq são muitos ) ,e destacar vários personagens : Luiz de Almeida ( eterno prefeito ) , Serafim Sana , Godofredo Candido Almeida , Godofredo filho , Tãozinho Godô , Godozinho , José Bonifácio , Teia , Benedito , Salvador , José e Expedito Buti , Antônio da Ilza , Seu Liberato , Ninico Mota , Chico do padre , Nonato e Marçal , Zé e Lika Quinquim , os Fernandes , os Virgulinos , Antônio dentista , Anão ( diria naturalizado kkkk) , maricota , Iza , Dona Didina , Didi do líbio , líbio , Marcos Sana , Zé Flávio , Dona neném ( Maria Lina Ferreira ) , Rita. Bastião Paulo , Sebastião Paulo , panela , José Moura , ….. Chega…… São muitos !!!Aguardo ansioso a sequência . Forte abraço !
Caro Paulo Henrique, o número está lá — capítulo 1 — vamos continuar. Aliás, tenho muito trabalho levantado, como você e todos podem ver, mencionei uma vasta pesquisa, fiz a pedido da Prefeitura na gestão de Antônio Celso. Terminou o mandato e o seguinte não se interessou, lamentei e continuo lamentando porque precisava de suporte. Mesmo assim, fizemos pesquisas com o VINHO DO GODÓ, a PHARMÁCIA SÃO JOSÉ, DOCE DE GOIABA. BANDA DO GODÓ e outros temas mais. Temos a incumbência de levantar também a história de outras comunas da região da região de influência de Itabira (25), e tem o objetivo e atrair a atenção de Itabira para esses municípios, considerando, principalmente, que o êxodo rural, comandado pela mineração do ferro foi e é a principal causadora do empobrecimento de uma região que luta ainda pela sobrevivência. Sou-lhe imensamente grato e espero contar com a sua ajuda nesta empreitada. Seu sobrenome — Carvalho Vitor — muito me desperta para considerara sua inteligência, dinamismo, ética, religiosidade, amor à família e a comunidade, enfim, a lembrança de meu modelo de ser humano que se chamava (para mim ainda se chama porque sle é eterno) Emanuel Vitor. Um abraço.
Mais uma vez parabenizo pela sensibilidade . Sou seu fã desde os tempos em q publicava crônicas , poemas e relatos de meu tio Zezé (José Lucas Ferreira) em revistas e jornais de Itabira . Aprecio muito essa sua inciativa de resgatar a história de nossas origens …. Não tive o prazer de provar o vinho de seu avó paterno , até mesmo pq era muito criança . Porém lembro perfeitamente da fisionomia do velho Godô qdo acompanhei meu pai juntamente com o seu tio Godofredo algumas vezes a São Sebastião levando medicamentos para ele . Naquela época ainda existia o velho sobrado defronte a outro sobrado , de seu avó materno , o tb saudoso Serafim Sana .Deste , tenho a grata lembrança do suco de uva e molho inglês q certamente era ele quem produzia . Apesar de muito jovem acho q provei do vinho o qual presumo q ele também o fabricava . Tenho o gostinho na boca de ambos até hj , apesar de ter passado meio século . São muitas lembranças q se não forem anotadas ,catalogadas e publicada ficarão esquecidas no passado . Conte comigo !!!
O sobrado de meu avô materno, Serafim, está lá firme e seguro. O sobrado que foi ao chão pertencia ao avô paterno, seu Godó. Quer falar de quem era fã de quem? Eu era (e sou ainda, é claro) admirador de seu pai, Emanuel Vitor. Um gentleman. Amigo mais chegado do Zezé por ter sido um solteirão. Fizemos filmagens fantásticas de nove festas de setembro ano após ano. Quase desmaio de rir quando me lembro da seguinte cena: eu segurando uma possante filmadora, dos tempos das antigas, Zezé com o microfone fazendo entrevistas nas ruas movimentadas. Chegamos ao Benedito Buty (não sei se vc se lembra dele). Zezé o pegou na janela de sua casa. E o chamou de Nelson Mandela. A câmera tremeu porque ri demais. Benedito Buty era clone do Mandela. Inesquecível. Assim eu me divertia com as suas tiradas culturais imprevisíveis.
Parabéns prezado Ze Sana! Aprendi muito da historia. Vc como sempre competente dando valor a historia e as suas origens. Sucesso! Grande abraço
E você, Vanessa, sempre nos prestigiando. Muito obrigado.A sua opinião é de peso. Não nos abandone!
Amei esta reportagem! Quanta riqueza de informações!!! Saudades !
Oi Idelma, como vai vc? Tanto tempo, hein? Obrigado pela sua participação. Continue conosco.
Agradeço imensamente por esse artigo! Sou pesquisadora e há anos tenho trabalhado em resgatar a história dos meus antepassados e acredito que o citado João da Silva Maia, fundador da cidade, possa ser meu antepassado. Gostaria de saber como posso ter acesso e mais informações desse livro de tombos. Seria de grande valia não somente para a minha pesquisa familiar mas também para muitas famílias da comunidade e espalhadas pelo mundo!
Interessante esse assunto, geralmente acesso esse site e sempre acho conteúdo interessante como esse.
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