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Sou do tempo do engenho-de-cana-de-açúcar tocado a burro de canga ou besta serviçal. A antiga montagem é dos anos 1900, ou  mesmo do fim oitocentista. Antigamente funcionava com bois fazendo rodeios em torno de uma roda, enquanto mil coisas aconteciam. Com a evolução dos tempos, foi introduzida a energia elétrica como um passo à frente.

Cheguei a presenciar, ainda criança, homens parrudos enfiando-se em filas, da cana roçada na Moenda Bolandeira (ou Trapiche) à descida ao líquido delicioso destinado à garapa, daí à aguardente ou à rapadura. Para facilitar o entendimento, estou na  Fazenda dos Bambus, uma das mais bonitas destas Minas Gerais nos anos 1950/60. A chegada da energia elétrica, mais possante, descansou um pouco os animais.

A tarefa agora é montar peças novas, recuperadas, misturadas às mais usadas, experientes, estas que necessitam ser levadas às oficinas de tornearia e ajustagem, as quais  acabam-se tornando pilares fundamentais da indústria mecânica, focadas na fabricação de uma série de produtos.

Vou dar um pulo agora ao time (ou engenho, na minha concepção) do Clube Atlético Mineiro, que tem um treinador-engenheiro chamado Jorge Luís Sampaoli Moya, argentino, simplesmente chamado de Sampaoli, indicado pela torcida como o ideal para ser o “engenheiro” da Moenda localizada no Trapiche nomeado Arena MRV e também Cidade do Galo. O argentino  precisa saber onde se encaixam peça por peça, meia dúzia desconhecida, se há encaixes de parafusos, arruelas e se tem ferramentas que o ajudem a realizar a proeza. E tem tempo exíguo para realizar o milagre. E um detalhe: Sampa cai na besteira de ser franco e dizer que  desconhece alguns itens, ou fragmentos, isto é, atletas. Fez lembrar Oswaldo Faria em “Coragem para dizer a verdade”.

 

GRANDE ENCOMENDA

 

Como nas grandes fazendas e nos campos de futebol, chegam encomendas de alta responsabilidade: de um lado cana-de-açúcar a ser moída, rapadura e a famosa marca “Bambuína”, marca já famosa de cachaça. Em contraposição, o engenheiro Jorge Sampaoli, pressionado, lá vem de cabeça baixa, correndo como se fosse socorrer alguém numa forca, não arrancando os cabelos porque já os extorquiu, nem olha para o campo, nem bebe a chamada “água fraca”, pré-produto da também apelidada “maldita cana”, muito consumida, principalmente naquelas plagas.

Mais da metade de seus críticos, incluindo os corneteiros de plantão, preveem que o Atlético deve levar uma goleada histórica do Cruzeiro Esporte Clube e tornar-se candidato a não disputar, ao contrário do que  vem há seis anos seguidos, vencendo, agora partindo para o hepta do mixo mas obrigatório para as duas forças título do Campeonato Mineiro de Futebol.

Mas venceu por 2 a 1, de virada, com gol antológico do quase  super quarentão, Hulk. Ainda mais com a participação de um time coeso, surpreso, impensável, dando a seguinte resposta: treino é treino, jogo é jogo e clássico é clássico. E quem me diz agora que Sampaoli é burro, retardado, maluco? Calou a cidade, o estado e o país com um gol que entra para as pinturas artísticas do futebol. Quanto ao Sampa, pegou jogadores que mal desceram em aeroportos, sequer sabia seus nomes de cartório ou pia batismal e perguntou a um e a outro: “What is your name? Ou mesmo: “Quel est ton nom?” Ou ainda: “¿Cómo te llamas?”

Para arrematar o dia preto e branco, um infeliz fulano de tal deu um berro na rua, ouvido até pelos frequentadores da missa das 19 horas: “O Galo deu sorte”. A resposta um amigo arrancou em seguida de um devoto de Nelson Rodrigues: “Sorte não é defeito”.

 

José Sana

Foto: redes sociais

NS
José Sana, jornalista, historiador, graduado em Letras, nasceu em São Sebastião do Rio Preto, reside em Itabira desde 1966.

    BOLSÃO DE MISÉRIA E CIDADE FANTASMA

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